31 de agosto de 2003

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nothing works on a sunday. but then again, sometimes some things do.

30 de agosto de 2003

UM PARÊNTESE

alarme dado pelo carlos. estou meio cética, mas se for verdade, aconteça o que acontecer, estarei surtando por lá.
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meu amor se alimenta de abismos.
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amo você e me estendo sobre os abismos que nos separam e são os abismos o que nos une no fim. meu amor é esse me estender sobre abismos, todos os abismos do mundo. meu amor precisa de abismos para existir, para se alimentar, para sobreviver. meu amor precisa de abismos.
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então amo você, então é isso? me estendo sobre fendas sem fundo para alcançá-lo e o alcanço sem nunca tê-lo encontrado. então amo você, mesmo sem saber o que é amor e o que são abismos e quem é você e quem sou eu. amo você e saber é despiciendo, saber me parece cada vez mais e mais irrelevante. saber quando dizer, saber como dizer, saber dizer mesmo, dizer é irrelevante, dizer é apenas concatenar palavras em busca de um sentido que jamais será alcançado por palavras. dizer é concatenar significantes em busca do significado indizível. dizer é concatenar significantes que tornam inalcançável o significado. então não digo, desisto de dizer, mas estendo, me estendo, e no meu silêncio absoluto espero ter dito tudo e espero alcançá-lo. porque o que eu quero dizer a você é o indizível. é que amo você, é isso, e isso, isso é indizível. mas amo você. e não digo. e me estendo.
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amor deve ser isso, estender a mão para atravessar abismos que não podem ser superados, que são superados pelo mero estender de mãos, que por isso mesmo não são superados jamais. amar deve ser se estender para superar abismos insuperáveis sem superá-los porque superá-los não é o que importa. o que importa é se estender para. amor deve ser isso.
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e eu queria saber dizer, queria ser capaz de vencer toda a infinitude que nos separa, estender a mão, atravessar abismos, e alcançá-lo. sei que você existe em algum lugar infinitamente remoto e surpreendentemente próximo, sei que você está aqui comigo mesmo enquanto eu mesma não estou e percorro universos a sua procura, sei que eu o procuro enquanto você nunca deixou de estar comigo. e sei que por mais próximo que você esteja, todos os abismos persistirão e você ainda assim estará infinitamente próximo e surpreendentemente remoto. e eu queria saber dizer, há tanto que eu queria saber dizer. há tanto a ser dito. queria contar a você tudo, queria mostrar a você tudo, queria que você tivesse visto tudo, esse tudo que me fez sorrir e que me fez chorar e que me massacrou e que me salvou e que me matou e que me pariu desde a última vez em que saí em vão a sua procura. queria saber dizer tudo, queria saber dizer que não sou mais eu, não sou mais aquele eu que você não conheceu e que sou agora um eu novo que você também não conhecerá porque nunca seremos capazes de nos estender as mãos. e queria que você visse, olha só quanto já percorri do caminho, quanto já venci do caminho, quanto do caminho ainda não me venceu. queria saber dizer, olha só quanto cresci, quanto cresci desde a última vez em que não nos encontramos, quanto cresci desde a última vez em que não nos enxergamos e não sentamos lado a lado e não nos estendemos as mãos e não atravessamos os abismos que nos separavam para nos alcançar. queria tanto tanto tanto saber dizer que eu sei, agora eu sei, agora eu sei que você existe e que nos encontraremos e que jamais nos encontraremos e que isso não importa, nunca é isso o que importa, desde que eu estenda a mão, desde que eu me acredite capaz de vencer os abismos que nos separam e estenda a mão para tocar seu rosto, mesmo que eu jamais toque seu rosto, mesmo que eu não possa tocá-lo verdadeiramente, o que basta é isso, que eu acredite tê-lo tocado por alguns instantes, e que você acredite que eu o toquei, o que basta é isso, só isso, e nós nos teremos tocado, ainda que jamais tenhamos nos tocado. queria saber dizer isso, que basta estender a mão, porque os abismos que não podem ser atravessados não serão atravessados, os abismos insuperáveis serão sempre insuperáveis, mas que o que mantém você infinitamente remoto não são os abismos, o que mantém você insuperavelmente remoto não são os abismos, é a minha incapacidade de estender a mão. e eu queria saber dizer e eu queria saber tentar e eu queria acreditar que você fará o mesmo e talvez os abismos não sejam vencidos e os abismos certamente não serão vencidos mas nós nos alcançaremos à distância e eu não estarei mais a sua procura porque você estará comigo ainda que separado por todos os abismos do mundo. porque estaremos estendidos um na direção do outro e estaremos separados mas não haverá abismo no mundo capaz de nos separar. todos os abismos do mundo, nenhum abismo no mundo. e eu queria saber dizer que agora eu sei. e que sou capaz de estender a mão. que estendo.

29 de agosto de 2003

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acho que com todo mundo é assim. e, quer saber, está bem assim. porque eu só quero ir junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto. então está bem assim, tudo bem assim. sobreviver, até o dia em que eu não sobreviver mais. estar aqui até não estar mais. estar em paz com a absoluta efemeridade de tudo que é matéria. amar as coisas que apodrecem. acho que é isso. acho que com todo mundo é assim. e está bem assim
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acho que com todo mundo é assim, sobrevivemos, sempre e sempre, sempre saimos inteiros, instinto visceral de sobrevivência, é isso, não é? sempre sobrevivemos.

sempre sobrevivemos, até que um dia não sobrevivemos. sobrevivemos até que um dia não. acho que com todo mundo é assim.
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engraçado, que às vezes a sensação é exatamente essa. o navio começou a afundar, sem botes salva vidas, ou nado ou morro afogada. o navio está afundando, afundando, quase afundou, e aí, qual vai ser? o navio afundou. e agora, qual é? e agora? são os caminhos conhecidos, os caminhos seguros, os caminhos estáticos, os caminhos prisão, são eles o que se desfaz, e agora, o que eu faço sem meu caminho?

agora.

agora encontrar um caminho novo. agora nadar. agora não morrer, faça eu o que eu fizer, não morrer agora, não morrer nunca. e eu nunca morro. eu sempre encontro um caminho novo. eu sempre aprendo a nadar. porque, ai de ti, ó velho mar profundo, eu sempre venho à tona de todos os naufrágios.
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"Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar. As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros: 'Ou você aprende ou morre'. Acordou quando a água chegava a seus tornozelos.

Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ou ele aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.

Na terceira noite, o navio afundou."


(Caio Fernando Abreu, in Pedras de Calcutá)

28 de agosto de 2003

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só sei que sigo. e que não sei.
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a verdade é que não sei. tateio o caminho às cegas, não sei bem onde estou pisando, não mais. a verdade é que não sei mais, não sei se um dia soube, só sei que, depois de tudo, não sei. agora, e depois de agora, não sei, não mais. só sei que não sei e só sei que sigo, sempre sigo, porque não consigo me fazer parar de seguir. só sigo trôpega enquanto tateio o caminho às cegas. não sei para onde, não sei com quem, não sei por que. tateio o caminho por inércia, mais por inércia do que qualquer outra coisa. caminhava antes, caminho agora, caminho sempre e sempre. se caminho na direção de antes, não sei, não sei. o universo me vendou, me girou uma, duas, ene vezes, me empurrou caminho adentro. se avanço ou se regresso na minha senda? a verdade é que não sei. só sei que sigo. e que não sei.
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"Como te explicar: eis que de repente aquele mundo inteiro que eu era crispava-se de cansaço, eu não suportava mais carregar nos ombros - o quê? - e sucumbia a uma tensão que eu não sabia que sempre fora minha. Já estava havendo então, e eu ainda não sabia, os primeiros sinais em mim do desabamento de cavernas calcáreas subterrâneas, que ruíam sob o peso de camadas arqueológicas estratificadas - e o peso do primeiro desabamento abaixava os cantos de minha boca, me deixava os braços caídos. O que me acontecia? Nunca saberei entender mas há de haver quem entenda. E é em mim que tenho que criar esse alguém que entenderá."

(Clarice Lispector, in A Paixão Segundo G.H.)

27 de agosto de 2003

DEFCON FIVE

adquirir o saudável hábito de responder meus e-mails é a atual prioridade máxima. andam me mandando umas mensagens lindinhas, lindinhas desde o meu aniversário, mas elas se perdem no buraco negro que é a minha caixa de entrada do outlook express. aliás, adquirir o ainda mais saudável hábito de limpar a minha caixa de entrada do outlook express também é prioridade máxima. meu talento para acumular lixo é um troço insuperável.

26 de agosto de 2003

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"i'm telling you now
the greatest thing you ever can do now
is trade a smile with someone who's blue now
it's very easy just."

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isso era pra ser um post interessante, mas, bem, deixa pra próxima. não tá rolando. estou lesa, lesa.

23 de agosto de 2003

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meanwhile, i'm only trying to keep my head above the water. what else is a girl supposed to do?
THE TIMES THEY ARE A-CHANGIN?

bob dylan é O homem. também é minha companhia mais assídua ultimamente, sad as it does or does not sound. ele não é de todo mau, sério. desafina um pouco, mas é parte do charme. e a gaitinha, aquela gaitinha conquista uma garota. a gaitinha, e o jeitinho dele de perguntar, how does it feel to be on your own, with no direction home, like a complete unknown, like a rolling stone. cause i've always been a sucker for guys who ask me questions i can't answer.
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"come gather around people wherever you roam
and admit that the waters around you have grown
and accept it that soon you'll be drenched to the bone.
if your time to you is worth saving
then you better start swimming or you'll sink like a stone
for the times they are a-changing"