18 de julho de 2004

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acho que estou numa fase visual: i've been craving for beauty lately. even the smallest piece of beauty. então andei saracoteando no ccbb, assistindo a sessões aleatórias no anima mundi e conferindo a exposição que pergunta onde diabos está a tal da geração oitenta de que eu nunca ouvi falar - e, pamem!, fiquei impressionada quando não esperava ficar nem um pouco impressionada. talvez seja só que a minha geração (a oitenta, ahá!)  se identifique sempre com qualquer coisa que tenha o mais ínfimo viés pop/pobre. não sei. também não me interessa. gostei.
 
também tentei ir no museu nacional de belas artes, pra ver a coleção das irmãs ema/eva klabin.  não deu. tenho que voltar no futuro próximo, antes que a mostra termine.
 
mas ando sentindo falta. tantas faltas. falta da falta. de estar no mundo, eu, o mundo, eu no mundo. de estar sozinha, brigando de foice pra nunca estar sozinha enquanto sinto falta de estar sozinha. i've been craving for loneliness lately. for beauty. for tragedy. for the very tragic beauty of being alone.
 
gosto desse verbo, to crave. em português, o ansiar por não tem o mesmo peso dramático. been craving for drama lately.
 
e ando dispersa. mas isso tudo bem. é assim que eu gosto. sempre que concentro minha energia, isso ende a virar implosão.
 
e chega. vou catar beleza lá fora.

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ando exercitando modos de boa menina, caras e bocas e olhos da moça doce educada polida que não sou, não faço questão de ser. não ando mordendo, caninos recolhidos na boca, inocentes formando o sorriso. não ando mordendo. ando gentil. ando quieta. ando mansa. e nessa de andar mansa, às vezes quase nem ando. fico. vou ficando. e nessa de ir ficando, às vezes fico em lugares onde não ficaria, não faria questão de ficar. mas vou ficando, rugindo um pouco por dentro, sorrindo um tanto por fora, como talvez fosse o jeito das damas de antigamente. vou exercitando modos de dama, de boa menina, e não sou dama. nem boa. nem menina. vou me fazendo de mansa e não sou mansa. ando mansa. não ando.
 
talvez seja só o tempo de afiar os dentes.

22 de junho de 2004

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começo a acreditar que a vida é isso que está aí.

8 de junho de 2004

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"foi tudo muito súbito
tudo muito susto
tudo assim como a resposta
fica quando chega a pergunta

esse isso meio assunto
que é quando a gente está longe
e continua junto"


(Paulo Leminski, em O Ex-Estranho)
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"Dói de todos os lados, os de fora, os de dentro, de baixo e de cima, nenhuma saída, e você meio cego, meio tonto, só sabe que tem que continuar, meio sem esperança, as ilusões despedaçadas, o coração taquicárdico, língua seca, e continuando. Continuando. Resistimos, aos trancos, já nem sei se foi escolha ou solavanco. Difícil arrancar uma certa lucidez disso tudo. Mas sinto que o coração se depura (é tão antigo falar em coração...) um pouco mais, em cada porrada. Meu olho compreende cada vez mais. Pode ser útil, mas gosto assim, aqui, no meio de todos os sacos de lixo que a greve dps lixeiros deixou amontoada pela cidade (as escadarias do Teatro Municipal estão cheias, o que acho muito expressivo). E resisto. Gosto de mim assim, e mesmo que não houvesse mais, só por isso. Por resistir. Quando o mais coerente seria estar talvez numa clínica psiquiátrica."

(Caio Fernando Abreu, em carta a Suzana Saldanha)
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"Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida e que não a entendemos."

(Albert Camus, em O Mito de Sísifo)
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acordo de um sono sem sono com a boca seca. ainda a taquicardia. ainda o desespero. ainda o silêncio. o copo d'água na mesa de cabeceira vazio. acabaram os comprimidos.
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coragem. tomar alguns instantes para me distrair da minha dor mas minha dor não se distrai de mim. insônia. taquicardia às quatro da manhã. que remédio. tomar um copo d'água, um comprimido, e me revirar na cama sentindo o coração pressionar os ouvidos. lá fora, o mundo dorme. e cala.

7 de junho de 2004

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estou cansada. não sei se ainda sei carregar esse corpo caminho adiante. não sei se me restam forças. não sei se esse corpo vale as forças que acredito não me restarem. o que sou eu senão esse corpo? sou esse corpo. é tudo isso que sou, é só isso que sou. e isso não parece valer as forças que não me restam. que não tenho.

todo mundo repete caetano, cada um sabe a dor, a delícia também, mas a dor a dor a dor de ser o que é. a sensação é de que ninguém sabe. o lugar tão absolutamente comum de que minha dor é mais forte que a de todos os outros. talvez não seja. mas eu sinto mais, será que isso conta? eu sinto mais. todo mundo me diz que eu sinto mais. além da conta. além de mim. eu nunca vi ninguém sentir tudo como eu sinto, nunca vi ninguém ficar devastado por tudo que a vida tem de mais mínimo como eu fico. e todo mundo me diz que eu não aguento isso, que eu não fui feita pra isso, que eu sou frágil frágil frágil. será que é tão absurdo assim, tão egocêntrico assim, que eu concorde? que eu concordo?

todo mundo diz que cada um tem sua dor, que não se pode nunca saber qual é a dor do outro, que não se pode nunca saber se a dor do outro é menor, se é maior, do que a sua. não? a vida sempre pareceu me pesar mais que a todos os outros. nunca encontrei nos olhos de ninguém essa minha angústia, assim tão grande, assim tão exata, assim tão gratuita. claro, já vi tragédias, quem não? mas não é isso o pior, que eu não tenho tragédias a justificar minha angústia? que a minha angústia não precisa, nunca precisou, de tragédias. que a tragédia já é minha sem tragédias outras. que minha tragédia eu já tenho de nascença, que ela é isso que eu carrego no peito. que é ela o me faz sentir quando eu não aguento mais não quero mais não posso mais sentir.

não consigo acreditar que a dor do outro seja maior do que isso e não seja palpável, não seja sólida, não seja óbvia. se a dor de alguém fosse maior do que isso, transbordaria, seria óbvia, eu enxergaria. porque eu transbordo disso. porque eu sou óbvia. porque eu estou transbordando disso e isso me afoga. me ultrapassa.

não aguento mais carregar esse corpo caminho adiante e não me restam forças e só me resta esse corpo esse peito que sente além de mim e que eu não consigo fazer parar de sentir. o que sinto é que não posso mais sentir.

não aguento mais ser eu. ha algum tempo. há todo tempo do mundo. tenho que deixar de ser eu. ou que deixar de ser.

espero que isso passe logo. eu sei que vai passar. mas tem que ser logo. logo. ou passo eu.

p.s. eu sei, soa exagerado, fora de qualquer proporção. mas vocês estão aí fora. então fodam-se. eu posso tentar dar proporção a isso. vocês não. é o que todo mundo diz, não é? vocês não podem me dizer como sentir ou deixar de sentir. então não tentem. porque eu quero desesperadamente ajuda, mas já é hora de aceitar que ninguém vai me salvar de mim. não tentem.
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estava voltando pra casa. ainda longe de casa. nunca perto de casa. nunca. ainda. engarrafamento. encostei a testa na janela. busquei na rua alguma cena bonita, alguma ínfima porção de lirismo, algo que me salvasse mesmo que apenas por alguns instantes de tudo que se passava, que se passa sempre, por dentro. avistei, em outro ônibus, vermelho, uma placa. dizia desembarque. soou como metáfora. como convite.

31 de maio de 2004

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a sensação é de que tudo dá certo o tempo todo. de que tudo dá errado o tempo todo. de que tudo é tão fácil o tempo todo. de que nada nunca foi tão difícil. de amar desesperadamente odiar desesperadamente o tempo todo o tempo todo o tempo todo. é pra ser assim? sinto ganas de quebrar grilhões enquanto me agarro desesperadamente às suas mãos. e resisto à tentação de tirar você da minha vida enquanto resisto à tentação de tornar você o centro da minha vida enquanto resisto à tentação de acabar de vez com a minha vida. porque a sensação é de que tudo angustia, quando é bom angustia, quando é ruim angustia. estar com alguém angustia, estar sozinha angustia. a sensação é de que tudo tem que ser resistir, resistir a mim, resistir a você. a tudo. quando nada flui, esse meu tentar desesperadamente fazer fluir é o mesmo que impedir de fluir, enquanto fazer nada para fazer fluir é permitir que persista a ausência de fluir. então o que? e você me pede, deixe as coisas fluirem. como, se não estão fluindo? se não fluem? o que você me pede? que eu faça com que elas fluam? que não? é tudo tão certo e tão errado e tão certo o tempo todo. fico resistindo a tudo e nada flui quando resisto e nada fluirá quando eu deixar de resistir. eu fico imaginando exatamente o que é isso que você me pede. se não é exatamente isso o que você me pede.
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mesmo com todo esse ioga, ando uma pilha de nervos. tenho pelo menos cem páginas de monografia por escrever, e em momentos como esse, apesar de ter a idéia toda bonitinha na minha cabeça, não consigo colocar uma linha no papel. e rôo unhas. e ataco barras de chocolate. e fico obcecada com os aspectos mais insignificantes da minha vida diária. e rôo unhas.

céus. haja ioga.

17 de maio de 2004

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conhecem a sensação de chegar perto demais de um quadro de maneira a tornar impossível efetivamente enxergá-lo? a analogia se aplica na relação eu - tema da minha monografia.

uma considerável ignorância a respeito de um tema é sempre necessária para que se possa falar sobre ele. os jornalistas da revista veja que o digam.

aliás, aproveitando o ensejo, é isso, mais uma virose (talvez dengue de novo) o que tem me afastado daqui. estou até o couro cabeludo com poder normativo de agências reguladoras, princípio da separação dos poderes, estado democrático de direito, princípio da legalidade, consensualidade na administração pública, teoria de ordenamentos setoriais, delegações legislativas, poder regulamentar. sem sobrar muito espaço pra literatura e devaneios. também tem que dengue me deixa anti-social.

mas eu sempre volto.

30 de abril de 2004

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"Basta de poemas para depois...
Ó Vida, e se nós dois
Vivêssemos juntos?"


(Mário Quintana, escritor brasileiro)

28 de abril de 2004

28 DE ABRIL

estivemos juntos antes de ontem. não fizemos muito, chegamos em casa, ele abriu as janelas, insistiu que eu comesse alguma coisa. não comi. nos deitamos. ficamos deitados na cama algum tempo antes de dormir. não lembro se falamos muito, ou pouco, ou nada. mas lembro temer que as mãos dele fossem brutas demais para me tocar sem me ferir, eu estava tomada por uma fragilidade ímpar, anjos e demônios e bruxos e nervos e feridas e cicatrizes e memória, céus, tanta memória à flor da pele, tanto tudo à flor da pele. tudo exposto. toda exposta. mas interagimos. interagimos. vagarosa. cuidadosa. delicadamente. em câmara lenta. rimos um pouco. talvez eu tenha chorado um pouco. falamos muito. ou pouco. ou nada. apenas nos deitamos. e permiti que ele me tocasse, no auge na fronteira no limite, no exato limite de toda minha imensa fragilidade. naquele ponto em que um passo em falso pode ser a diferença entre o orgasmo, o homicídio. depois caímos no sono. quase sem perceber.

tem sido assim desde que começamos. em câmara lenta. vagarosa cuidadosa delicadamente. rindo um pouco. chorando um pouco. testando limites, todos os limites, os meus, os dele. os meus. meus limites, todos eles. toda a minha fragilidade. e (pasmem) por vezes venho me descobrindo forte perto dele.

e sinto sinto sinto em tudo. em mim. em mim. em mim. sinto: é como deve ser. me deixo tocar.

27 de abril de 2004

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percebam que no post abaixo eu tomei o que escrevo como literatura. aham. espero que tenha sido um lapso.

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mas não deixei de sentir nesse meio tempo. ainda tenho no peito essas catástrofes. é só que as catástrofes que tenho no peito não saíram do peito nesse meio tempo. mas catástrofes há, catástrofes haverá sempre, o inferno é este, que catástrofes não deixam de haver.

caio f. criticou em carta o suicídio de ana c., um absurdo, logo ela que tinha nas mãos a literatura, esse grande instrumento para lidar com o caos com o medo com a dor. e vocês sabem, sou fã-mor de caio f., mas, na boa, e literatura lá é instrumento pra lidar com alguma coisa? não dói menos porque escrevo. só registro o que dói quando escrevo. não deixa de existir a dor. não diminui a dor. não acalenta. não consola. nunca consolou. digo o que digo porque não consigo deixar de dizer. não diria, fosse esta uma escolha.

acho que seria ana c. se ela ainda respirasse e andasse na talvez vã tentativa de evitar o suicídio. é isso pra mim, uma imensa tentativa de evitar o suicídio, de andar, continuar andando. o que escrevo não me dá as forças de que preciso para andar. o que escrevo são tão somente as pegadas que deixo enquanto ando.
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talvez seja a sensação do espreitar de olhos. talvez seja que não me sinto mais segura aqui. porque sei que ando medindo o que tenho a dizer antes de dizer, e enquanto meço o que tenho a dizer me foge e vira não dito. vira aquele pensar o fluxo que atravanca o fluxo. o pensar que não é fluxo. que vira rolha. a consciência do processo que se transmuta em obstáculo ao processo. se o processo está medularizado, não precisa chegar nos neurônios, não pode chegar nos neurônios. é automático, tem que ser automático. não é não sendo automático. não é. ou é?

ou talvez não. talvez seja a percepção de que o terreno é minado, cada palavra que deixo cair aqui pode detonar bombar arrancar pernas braços vidas almas. minhas, dos outros. minhas. não deixo palavras caírem. há olhos à espreita. há quem leia. há quem ouça. então, isso, premissa maior, há quem ouça. premissa menor, talvez eu não queira ser ouvida. conclusão, não digo. não sou ouvida. não digo. seria isso?

náusea seca que se revolve.

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o tempo todo é isso, esse algo a ser dito, nunca dito, no estômago, na garganta, na ponta da língua: e volta. tento colocar pra fora, enfio o dedo na garganta. não sai. não vira verbo. como se abrisse os olhos e visse e o visto sumisse antes que sua imagem se formasse. como se ficasse o contorno, a sombra, o vulto. o fantasma, juro que vi, tenho certeza que vi. eu juro. está aqui, acho. fermentando. no estômago.

estou tentando voltar, porque não quero ficar com essa náusea seca a vida toda. mesmo. mas o tempo todo que quero dizer me escapa pelas frestas entre os dedos enquanto tento detê-lo.

…

"Tu te abres como uma flor…
E
depois
o nosso olhar é límpido como as águas de um regato...
E distanciadamente falamos do mundo com todos os seus inclusives:
conflagrações, boatos, ataques, surpresas, compromissos...
E todas essas coisas atrozes são poemas a nossos ouvidos."


(Mário Quintana, escritor brasileiro)