...
me fazer de virtuosa é fácil, tão fácil, em terra de cego. mas. de soslaio, o desejo, esse demoniozinho no ombro que volta e meia me sussurra obsessões ridículas no pé do ouvido. me distrai por um segundo, nada podendo fazer a respeito, indago acerca da causalidade desse objeto: por que quero porque quero, um bibelôzinho colorido e inúitil. indago, como quem coça uma alergia ligeiramente incômoda, apenas ligeiramente incômoda apenas. apenas. mas. minto: incomoda algo mais. nem sei se quero tê-lo, bibelozinho. incômodo tão maior que o incômodo menor usual dos desejos, seria um desejo maior? me impediria o caminho da virtude que necessito ao menos emular. ao menos. manter fora de vista, seria a solução. ou destruir. destruir. o desejo de destrução aniquilação solução final holocausto um novo demoniozinho. mas. destruir. também me impediria o caminho da virtude. impediria? indago, finjo ignorar a coceira, impassível, me sussurra, não posso, de soslaio. me faço de virtuosa em terra de cego. em terra de cego ninguém enxerga. lá. muito bem. demônios. e anjos? indago. coça.
6 de fevereiro de 2006
5 de fevereiro de 2006
...
ando tomada de um egoísmo delicioso. por isso talvez não ande escrevendo, não me orgulho, não registro, quero me fazer de virtuosa e fazer como que ele não está aqui. não quero olhar para trás e ver essas pegadas. essas pegadas. mas essas pegadas. mas esse egoísmo.,
um sabor quase lascivo. escorre. pinga. transpira.
deslizo.
esse egoísmo sua.
suo.
sua.
ando tomada de um egoísmo delicioso. por isso talvez não ande escrevendo, não me orgulho, não registro, quero me fazer de virtuosa e fazer como que ele não está aqui. não quero olhar para trás e ver essas pegadas. essas pegadas. mas essas pegadas. mas esse egoísmo.,
um sabor quase lascivo. escorre. pinga. transpira.
deslizo.
esse egoísmo sua.
suo.
sua.
...
encaro nos olhos a suposta proclamada vulgaridade da escrita em primeira pessoa, e percebo advir ela de algo que definiria como limitação pessoal: sou-me intransferível. não desejo olhar para o outro, não tenho qualquer curiosidade acerca de alguma subjetividade que seja alheia à minha própria. pois só me interesso por mim mesma, e o outro só me interessa na medida em que olha para mim.
vulgaridade? suprema. tento desviar atenções, teço discursos gastos, me finjo autêntica, não me escondo atrás de personagens: mas me escondo atrás de uma linguagem que não utilizo com tanta destreza, mas em terra de cego. em terra de cego. me dispo acreditando me vestir, como o imperador do conto. as pessoas querem tanto tanto acreditar nos trajes e não há olhar inocente a apontar a verdade. a VERDADE. não me escondo atrás de personagem, sou minha própria personagem e nenhuma mais falsa que esta.
escrever em primeira pessoa é mentir que se fala de si. mentira? a suprema. suprema.
encaro nos olhos a suposta proclamada vulgaridade da escrita em primeira pessoa, e percebo advir ela de algo que definiria como limitação pessoal: sou-me intransferível. não desejo olhar para o outro, não tenho qualquer curiosidade acerca de alguma subjetividade que seja alheia à minha própria. pois só me interesso por mim mesma, e o outro só me interessa na medida em que olha para mim.
vulgaridade? suprema. tento desviar atenções, teço discursos gastos, me finjo autêntica, não me escondo atrás de personagens: mas me escondo atrás de uma linguagem que não utilizo com tanta destreza, mas em terra de cego. em terra de cego. me dispo acreditando me vestir, como o imperador do conto. as pessoas querem tanto tanto acreditar nos trajes e não há olhar inocente a apontar a verdade. a VERDADE. não me escondo atrás de personagem, sou minha própria personagem e nenhuma mais falsa que esta.
escrever em primeira pessoa é mentir que se fala de si. mentira? a suprema. suprema.
29 de dezembro de 2005
...
"lily is dancing on the table
we've all been pushed too far
i guess on days like this you know who your friends are
just another dead fag to you, that's all
just another light missing on a long taxi ride
and i'm down to your last cigarette
and this "we are one" crap as you're invading
this thing you call love, she smiles way too much
but i'm glad you're on my side
sure, i'm glad you're on my side
still"
(tori amos)
(ano difícil, andando em círculos concêntricos, um menor que o outro, um menos que o outro, de alguma maneira os círculos não terminam, não terminam. não terminam nunca.
a resolução, única resolução: chega de círculos.
um ano decente pra todos.)
"lily is dancing on the table
we've all been pushed too far
i guess on days like this you know who your friends are
just another dead fag to you, that's all
just another light missing on a long taxi ride
and i'm down to your last cigarette
and this "we are one" crap as you're invading
this thing you call love, she smiles way too much
but i'm glad you're on my side
sure, i'm glad you're on my side
still"
(tori amos)
(ano difícil, andando em círculos concêntricos, um menor que o outro, um menos que o outro, de alguma maneira os círculos não terminam, não terminam. não terminam nunca.
a resolução, única resolução: chega de círculos.
um ano decente pra todos.)
27 de novembro de 2005
...
procuro um caminho que me procura, algo que salta aos olhos no horizonte. serei eu nos olhos do horizonte, ou os olhos do horizonte em mim? talvez seja só questão de sentar numa pedra na margem, esperar que ele me encontre. sento. espero.
mas.
...e se ele tiver a mesma idéia?
eu no horizonte em mim. no horizonte. em mim.
temos as mesmas idéias. esperamo-nos.
procuro um caminho que me procura, algo que salta aos olhos no horizonte. serei eu nos olhos do horizonte, ou os olhos do horizonte em mim? talvez seja só questão de sentar numa pedra na margem, esperar que ele me encontre. sento. espero.
mas.
...e se ele tiver a mesma idéia?
eu no horizonte em mim. no horizonte. em mim.
temos as mesmas idéias. esperamo-nos.
7 de novembro de 2005
...
decomponho nosso encontro (seriam encontros? ainda não sei dizer) primeiro em formas básicas. cubos. cilindros. pirâmides. depois. quadrados. círculos. triângulos. depois. linhas. depois. pontos.
depois.
depois.
a escravização pela negação da forma é a escravização pela forma. a escravização pela forma é a escravização pela negação da forma. forma, disforma, tudo, escravização. somos escravos.
meu universo cubistificado se transmuda em camisa de força.
me afastar de você é me aproximar de você. me aproximar de você é me afastar de você. me afastar de você é me afastar de mim é me afastar de nós é me aproximar de você é me aproximar de mim é me aproximar de nós. me afastar de você é me aproximar de mim. distâncias são lentes e nenhuma distância está realmente lá enquanto tudo é permeado de toda distância do mundo. todas as formas são pontos permeados de toda distância. decomponho paisagens em pontos.
decompor nosso encontro em pontos é me afastar aproximar desfazer em coisa nenhuma. coisa nenhuma. tomo toda distância que inexiste e que permeia todas as formas desse nosso nós ainda dissolvida na forma sem forma desse nosso nós.
dissolvida em nosso nós, em nossos nós. nossos nós. nosso nosssos nós. ausência. onipresença. todanenhuma forma. camisa de força. forma. nosso nós. nossos nós. nós. decompor. desfazer os nós. desfazer o nós. desfazer todos nós.
que sobrem apenas. formas básicas. linhas. pontos.
que nada sobre.
que sobrem linhas.
que nada sobre.
somos as linhas. esses nós, esse nós. só linhas. emaranhadas, misturadas, fundidas. só linhas.
desfaçamo-nos em linhas.
desfaçamo-nos.
pairo em linhas.
pairo em pontos.
pairo em nós.
nós.
defaço-me. desfaçamo-nos.
decomponho nosso encontro (seriam encontros? ainda não sei dizer) primeiro em formas básicas. cubos. cilindros. pirâmides. depois. quadrados. círculos. triângulos. depois. linhas. depois. pontos.
depois.
depois.
a escravização pela negação da forma é a escravização pela forma. a escravização pela forma é a escravização pela negação da forma. forma, disforma, tudo, escravização. somos escravos.
meu universo cubistificado se transmuda em camisa de força.
me afastar de você é me aproximar de você. me aproximar de você é me afastar de você. me afastar de você é me afastar de mim é me afastar de nós é me aproximar de você é me aproximar de mim é me aproximar de nós. me afastar de você é me aproximar de mim. distâncias são lentes e nenhuma distância está realmente lá enquanto tudo é permeado de toda distância do mundo. todas as formas são pontos permeados de toda distância. decomponho paisagens em pontos.
decompor nosso encontro em pontos é me afastar aproximar desfazer em coisa nenhuma. coisa nenhuma. tomo toda distância que inexiste e que permeia todas as formas desse nosso nós ainda dissolvida na forma sem forma desse nosso nós.
dissolvida em nosso nós, em nossos nós. nossos nós. nosso nosssos nós. ausência. onipresença. todanenhuma forma. camisa de força. forma. nosso nós. nossos nós. nós. decompor. desfazer os nós. desfazer o nós. desfazer todos nós.
que sobrem apenas. formas básicas. linhas. pontos.
que nada sobre.
que sobrem linhas.
que nada sobre.
somos as linhas. esses nós, esse nós. só linhas. emaranhadas, misturadas, fundidas. só linhas.
desfaçamo-nos em linhas.
desfaçamo-nos.
pairo em linhas.
pairo em pontos.
pairo em nós.
nós.
defaço-me. desfaçamo-nos.
...
ipês são árvores que se despedem de flores na primavera. o mundo anda assim, ciclos sazonais invertidos. tudo invertido. tudo do avesso. paisagens cubistas. irreconhecíveis naturezas mortas vivas e homens com sem clarinetes e violões. assisto ipês se despedindo de flores, me despeço das minhas, outono no auge de primaveras. tudo invertido. eu invertida, minha face em desconstrução cubista no espelho, mulher com violão, mulher sem violão. mulher que chora. jackeline picasso se picasso a tivesse pintado uns cinqüenta anos antes. me observo cubista decomposta desconstruída decantada. desencantada. me observo cubista. me retorço me quebro me parto. parto. me despeço de flores, das minhas, flores em partida no auge da primavera. ou seria outono? despedir-me de flore. me preparar pra morrer. ou seria viver? ou seria? ou seria. morrer pra viver viver pra morrer. tudo a mesma coisa. tudo a mesmíssima coisa. tudo a mesmíssima coisa? não é isso ser cubista? desconstrução enquanto construção, decomposição enquanto composição. fundir shiva com brahma. transformar tudo em vishnu. concluir: não há permanência e tudo é a permanência da impermanência. permanência impermanência se dissolvem na paisagem do avesso. tudo que rui se constró tudo que se constrói rui ruiu está ruindo. está ruindo. enquanto falamos. enquanto falamos. enquanto falamos. tudo nasce vive morre enquanto falamos. tudo vive enquanto falamos. nós inclusive. morremos enquanto falamos, viver é morrer aos poucos. morro aos poucos. falamos. falo. vivo. morro. me decomponho. me componho. me recomponho. me decomponho. me acompanho. concomitantemente, tudo junto, tudo ao mesmo tempo. tudo enquanto falo. não há definição. não há nomes. falamos de tudo sem perceber que falamos de nada porque tudo é sui generis tudo é único e nessa unicidade tudo é dolorosamente a mesma coisa. todas as unicidades são combinações. cubos cilindros pirâmides quadrados círculos triângulos. linhas. linhas horizontais verticais diagonais perpendiculares paralelas. tudo que é paralelo se cruza. se dissolve. se funde. linhas. pontos. o mundo é cubista. me despeço de formas. me despeço de flores. haverá primaveraoutono a trazê-las de volta? me despeço. aguardo ipês florirem de novo num inverno que espero próximo. talvez então também eu.
ipês são árvores que se despedem de flores na primavera. o mundo anda assim, ciclos sazonais invertidos. tudo invertido. tudo do avesso. paisagens cubistas. irreconhecíveis naturezas mortas vivas e homens com sem clarinetes e violões. assisto ipês se despedindo de flores, me despeço das minhas, outono no auge de primaveras. tudo invertido. eu invertida, minha face em desconstrução cubista no espelho, mulher com violão, mulher sem violão. mulher que chora. jackeline picasso se picasso a tivesse pintado uns cinqüenta anos antes. me observo cubista decomposta desconstruída decantada. desencantada. me observo cubista. me retorço me quebro me parto. parto. me despeço de flores, das minhas, flores em partida no auge da primavera. ou seria outono? despedir-me de flore. me preparar pra morrer. ou seria viver? ou seria? ou seria. morrer pra viver viver pra morrer. tudo a mesma coisa. tudo a mesmíssima coisa. tudo a mesmíssima coisa? não é isso ser cubista? desconstrução enquanto construção, decomposição enquanto composição. fundir shiva com brahma. transformar tudo em vishnu. concluir: não há permanência e tudo é a permanência da impermanência. permanência impermanência se dissolvem na paisagem do avesso. tudo que rui se constró tudo que se constrói rui ruiu está ruindo. está ruindo. enquanto falamos. enquanto falamos. enquanto falamos. tudo nasce vive morre enquanto falamos. tudo vive enquanto falamos. nós inclusive. morremos enquanto falamos, viver é morrer aos poucos. morro aos poucos. falamos. falo. vivo. morro. me decomponho. me componho. me recomponho. me decomponho. me acompanho. concomitantemente, tudo junto, tudo ao mesmo tempo. tudo enquanto falo. não há definição. não há nomes. falamos de tudo sem perceber que falamos de nada porque tudo é sui generis tudo é único e nessa unicidade tudo é dolorosamente a mesma coisa. todas as unicidades são combinações. cubos cilindros pirâmides quadrados círculos triângulos. linhas. linhas horizontais verticais diagonais perpendiculares paralelas. tudo que é paralelo se cruza. se dissolve. se funde. linhas. pontos. o mundo é cubista. me despeço de formas. me despeço de flores. haverá primaveraoutono a trazê-las de volta? me despeço. aguardo ipês florirem de novo num inverno que espero próximo. talvez então também eu.
14 de outubro de 2005
...
a vida te dá esses pedaços infindáveis de experiência, e você cheio de cacos na mão sem saber muito bem o que fazer com eles. tudo desconexo, nada que se encaixe, nada que preste, nada que sirva para coisa alguma. nenhuma moral a ser extraída da história dos passos atrás, dops passos adiante. nada que você possa chamar de seu. o caminho debaixo dos seus pés se movendo feito esteira rolante e você tentando seguir o ritmo ofegante porque se não seguir você cai e cair é ainda pior que ofegar seguindo o ritmo.e você segue. segue tentando descobrir o que fazer com os cacos, são tantos, tantos, deveriam encaixar, deveria haver liga, não há liga, não encaixam, nada encaixa. deveria jogar fora, menos peso, mas você não os joga, ainda alimenta uma esperança meio cega, há de haver encaixe em algum lugar, você que não viu. você não joga nada fora. você não desiste de encaixar. nada encaixa. nada que você possa chamar de seu, nada. o caminho sob seus pés, também não é seu. nem é propriamente um caminho, convenhamos, é só uma esteira rolante, estatismo com impressão de movimento ou o movimento com impressão de estatismo. ou nenhum dos dois. tudo se move, nada se move. o móvel estático, o estático móvel, que resume todo o movimento planetário. tudo vindo de nada, indo pra lugar nenhum. você também. todos esses pedaços de experiência, tantos pedaços sem moral encaixe nexo. tantos pedaços, nenhum que você possa chamar de seu. você não joga fora. você se move sem se mover. sem lição. sem moral. sem encaixe. sem nexo. sem direção. sem nada. nada serve para coisa alguma. você se move.
a vida te dá esses pedaços infindáveis de experiência, e você cheio de cacos na mão sem saber muito bem o que fazer com eles. tudo desconexo, nada que se encaixe, nada que preste, nada que sirva para coisa alguma. nenhuma moral a ser extraída da história dos passos atrás, dops passos adiante. nada que você possa chamar de seu. o caminho debaixo dos seus pés se movendo feito esteira rolante e você tentando seguir o ritmo ofegante porque se não seguir você cai e cair é ainda pior que ofegar seguindo o ritmo.e você segue. segue tentando descobrir o que fazer com os cacos, são tantos, tantos, deveriam encaixar, deveria haver liga, não há liga, não encaixam, nada encaixa. deveria jogar fora, menos peso, mas você não os joga, ainda alimenta uma esperança meio cega, há de haver encaixe em algum lugar, você que não viu. você não joga nada fora. você não desiste de encaixar. nada encaixa. nada que você possa chamar de seu, nada. o caminho sob seus pés, também não é seu. nem é propriamente um caminho, convenhamos, é só uma esteira rolante, estatismo com impressão de movimento ou o movimento com impressão de estatismo. ou nenhum dos dois. tudo se move, nada se move. o móvel estático, o estático móvel, que resume todo o movimento planetário. tudo vindo de nada, indo pra lugar nenhum. você também. todos esses pedaços de experiência, tantos pedaços sem moral encaixe nexo. tantos pedaços, nenhum que você possa chamar de seu. você não joga fora. você se move sem se mover. sem lição. sem moral. sem encaixe. sem nexo. sem direção. sem nada. nada serve para coisa alguma. você se move.
3 de outubro de 2005
...
o mundo ser um lugar previsível, tudo já ter sido visto lido dito, nada disso importa. as coisas serão o que quiserem e não há nada a fazer a respeito. me sinto cassandra, profetizando a estupidez de quem e do que existe ao meu redor, apontando, gritando esperneando. assistindo o universo dar de ombros e seguir seu rumo.
que catástrofes se prenunciem não impede que catástrofes aconteçam.
um otimista talvez dissesse, prenunciar catástrofes nos torna mais preparados para enfrentá-las.
eu de há muito já não sou mais uma otimista.
o mundo ser um lugar previsível, tudo já ter sido visto lido dito, nada disso importa. as coisas serão o que quiserem e não há nada a fazer a respeito. me sinto cassandra, profetizando a estupidez de quem e do que existe ao meu redor, apontando, gritando esperneando. assistindo o universo dar de ombros e seguir seu rumo.
que catástrofes se prenunciem não impede que catástrofes aconteçam.
um otimista talvez dissesse, prenunciar catástrofes nos torna mais preparados para enfrentá-las.
eu de há muito já não sou mais uma otimista.
11 de setembro de 2005
...
os momentos se sucedem, um a um, lenços coloridos que se puxam da cartola de um mágico que não faz mágicas, a vida como prestigitação. soaria insípido, mas dentre os lenços há aqueles que são claros, transparentes, exatos. puros. límpidos. água de nascente, insípida apenas pra quem nunca sentiu sede, pra quem nunca levou aos lábios água de poça por engano.
o encontro, foi puro. límpido. exato. não definível, senão por essa pureza, limpidez, exatidão. instantes não definíveis, exatos.
vida de prestidigitação, a única mágica presente naquilo que se oferece de plano pelo que é, nem mais nem menos, sem ilusionismo barato, sem mágica sem mágica. a mágica está nesse exato que raramente se mostra, neste exato raro e valiosíssimo. foi exato. exato.
os momentos se sucedem, um a um, lenços coloridos que se puxam da cartola de um mágico que não faz mágicas, a vida como prestigitação. soaria insípido, mas dentre os lenços há aqueles que são claros, transparentes, exatos. puros. límpidos. água de nascente, insípida apenas pra quem nunca sentiu sede, pra quem nunca levou aos lábios água de poça por engano.
o encontro, foi puro. límpido. exato. não definível, senão por essa pureza, limpidez, exatidão. instantes não definíveis, exatos.
vida de prestidigitação, a única mágica presente naquilo que se oferece de plano pelo que é, nem mais nem menos, sem ilusionismo barato, sem mágica sem mágica. a mágica está nesse exato que raramente se mostra, neste exato raro e valiosíssimo. foi exato. exato.
4 de setembro de 2005
...
"and i'm recording our history now on the bedroom wall
and when we leave the landlord will come and paint over it all
and i am walking out in the rain
and i am listening to the low moan of the dial tone again
and i am getting nowhere with you
and i can't let it go
and i can't get through
so now use both hands
please use both hands
oh, no don't close your eyes
i am writing graffiti on your body
i am drawing the story of how hard we tried"
(ani di franco, both hands)
"and i'm recording our history now on the bedroom wall
and when we leave the landlord will come and paint over it all
and i am walking out in the rain
and i am listening to the low moan of the dial tone again
and i am getting nowhere with you
and i can't let it go
and i can't get through
so now use both hands
please use both hands
oh, no don't close your eyes
i am writing graffiti on your body
i am drawing the story of how hard we tried"
(ani di franco, both hands)
2 de setembro de 2005
24 de julho de 2005
...
tenho estado absorvida na tarefa de observar minha vida enquanto ela dá voltas (uma? duas? muitas?) de cento e oitenta graus. cento e oitenta graus, em câmera lenta lenta lentíssima. lentíssima. no ritmo com que as árvores nascem. crescem. morrem.
árvores morrem.
estou absorvida nessa tarefa, nessa estranhíssima de morrer. de me observar morrendo. de me observar deixando de ser a pessoa que eu costumava ser. de me observar enquanto mato / matam / morre a pessoa que eu costumava ser. algo nascerá no lugar dela? observo absorvida. observo. absorvo. me absorvo.
observo a mim mesma enquanto morro. e estou quase terminando. de me observar. de morrer. estou quase terminando de me observar enquanto morro.
observo algo enquanto algo se fecha.
talvez algo em algum outro lugar se abra.
mas é certo. é certo que algo se fecha. observo enquanto se fecha. observo. absorvo. estou absorvida.
...
..
.
algo se fecha.
tenho estado absorvida na tarefa de observar minha vida enquanto ela dá voltas (uma? duas? muitas?) de cento e oitenta graus. cento e oitenta graus, em câmera lenta lenta lentíssima. lentíssima. no ritmo com que as árvores nascem. crescem. morrem.
árvores morrem.
estou absorvida nessa tarefa, nessa estranhíssima de morrer. de me observar morrendo. de me observar deixando de ser a pessoa que eu costumava ser. de me observar enquanto mato / matam / morre a pessoa que eu costumava ser. algo nascerá no lugar dela? observo absorvida. observo. absorvo. me absorvo.
observo a mim mesma enquanto morro. e estou quase terminando. de me observar. de morrer. estou quase terminando de me observar enquanto morro.
observo algo enquanto algo se fecha.
talvez algo em algum outro lugar se abra.
mas é certo. é certo que algo se fecha. observo enquanto se fecha. observo. absorvo. estou absorvida.
...
..
.
algo se fecha.
17 de junho de 2005
...
os deuses me coagem ao individualismo. os deuses me obrigam a renegar o outro metafórico. me punem quando me recuso, mandam raios tempestades cataclismas. porradas. porradas em reação a um estender de mãos. porradas em reação a sorrisos. porradas em reação a nada. porradas. porradas. porradas. em paralelo, marte na um áries em ascenção no retorno solar. os deuses me coagem ao individualismo. cada vez menos me recuso. cada vez mais sou coagida. cada vez mais me rendo. cada vez mais só dou ao outro o puro e simples que decorre de um inafastável imperativo ético categórico. cada vez menos dou ao outro algo que decorra de uma espécie qualquer ou mínima de compaixão afeto generosidade. de amor. amor chega a soar risível. risível. risível.
cada vez mais sou coagida e cada vez mais o outro só existe para mim enquanto não me for moralmente possível dele declinar. fora disso: digo lamento, digo boa sorte, digo adeus.
o engraçado é isso já ser tão mais do que me seria socialmente exigível.
claro, exceções há. mas se afunilam. cada vez mais.
os deuses me coagem ao individualismo. os deuses me obrigam a renegar o outro metafórico. me punem quando me recuso, mandam raios tempestades cataclismas. porradas. porradas em reação a um estender de mãos. porradas em reação a sorrisos. porradas em reação a nada. porradas. porradas. porradas. em paralelo, marte na um áries em ascenção no retorno solar. os deuses me coagem ao individualismo. cada vez menos me recuso. cada vez mais sou coagida. cada vez mais me rendo. cada vez mais só dou ao outro o puro e simples que decorre de um inafastável imperativo ético categórico. cada vez menos dou ao outro algo que decorra de uma espécie qualquer ou mínima de compaixão afeto generosidade. de amor. amor chega a soar risível. risível. risível.
cada vez mais sou coagida e cada vez mais o outro só existe para mim enquanto não me for moralmente possível dele declinar. fora disso: digo lamento, digo boa sorte, digo adeus.
o engraçado é isso já ser tão mais do que me seria socialmente exigível.
claro, exceções há. mas se afunilam. cada vez mais.
11 de junho de 2005
...
"Se gritasse, quem das legiões de anjos escutaria
o grito? E mesmo se, inesperadamente,
um deles me acolhesse no coração: sucumbiria à sua
existência mais forte! Pois o belo não é senão
o princípio do espanto que mal conseguimos suportar,
e ainda assim, o admiramos porque, sereno,
deixa de nos destruir. Todo anjo é espantoso.
E por isso me contenho e refreio o apelo
de um soluço obscuro. Então quem
nos poderia valer? Anjos, não, homens, não,
e os animais inventivos logo se apercebem
de que não nos sentimos muito em casa
no mundo das explicações. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta, para vermos e revermos
todos os dias. Resta-nos a estrada de ontem
e o apelo mimado de um hábito
que por nós se afeiçoou, permaneceu e não foi embora.
E a noite, a noite quando o vento cheio de espaços do mundo
nos desgasta a face - para quem ela não saberia ser desejo e suave decepção,
ela, cuja proximidade pesa sobre
o coração solitário! Será mais leve para os amantes?
Juntos, eles apenas encobrem um para o outro seu destino.
Ainda não sabias? Lança o vazio aprisionado nos braços
para os espaços que respiramos! Talvez os pássaros sintam,
num vôo de maior intimidade, o ar mais amplo.
É, na verdade, as primaveras se valem de ti. Muitas estrelas
te dão coragem para percebê-las. Do passado,
levantou-se uma onda, vindo em tua direção, ou,
ao passares por uma janela aberta,
um violino se entregou a ti. Tudo isso era vocação.
Será que respondeste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo anunciasse
uma amada? (Onde queres abrigá-la,
quando pensamentos grandes e estranhos entram e saem
de ti e na maioria das vezes ficam contigo à noite.)
Na saudade, canta os amantes; está muito
longe de ser imortal sua celebrada ternura.
As abandonadas, tu quase as inveja, elas,
que sentiste mais amorosas do que satisfeitas. Recomeça
sempre de novo a cantar o louvor que nunca se esgota.
Pensa: o herói se contém, até o ocaso
é motivo para o último nascimento.
Mas os amantes, a natureza esgotada
os recolhe, como se já não houvesse duas vezes as forças
para tal desempenho. Já pensaste suficiente em Gaspara Stampa
a ponto de toda jovem abandonada
sentir no poderoso exemplo desta amante
o desejo de ser como ela?
Estas dores, as mais antigas de todas, não deveriam enfim
tornar-se mais fecundas? Não já é tempo de, amando,
nos libertar e, tremendo, resistir ao amado:
como a flecha resiste à corda a fim de, toda concentrada no impulso,
ser mais do que ela mesma? Pois em parte alguma há permanência.
Vozes, vozes! Escuta meu coração, como outrora somente
santos escutavam: a ponto de o apelo vigoroso
os levantar do chão; e, impossíveis,
continuarem ajoelhados e nem se aperceberem:
tanta era a escuta. Não que possas suportar a voz de Deus,
de forma alguma. Mas escuta o que suspira
a mensagem ininterrupta que se forma do silêncio.
UM sussurrosobe agora para ti daqueles jovens mortos.
Em todos os lugares em que entraste, nas igrejas de Roma e
de Nápoles, não te chegava o apelo sereno de teu destino?
Ou uma inscrição não te impunha sua altivez,
como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa!
O que querem de mim? Em silêncio devo depor a máscara
de injustiça que muitas vezes impede
um pouco o movimento puro de seus espíritos.
É estranho, sem dúvida, já não habitar a terra,
já não seguir os costumes que mal foram aprendidos,
já não dar às rosas e às outras coisas, grávidas de
promessas, a significação do futuro humano;
já não ser o que era na angústia infinita
de mãos e abandonar até o próprio nome,
como um brinquedo quebrado.
É estranho já não desejar os desejos. Estranho
ver pairar, solto no espaço,
tudo que se relacionava. Estar morto é trabalhoso
e cheio de repetições para, aos poucos, sentir
uma parcela da eternidade. - Mas todos os vivos cometem
o erro de fazerem distinções muito fortes.
Anjos (assim se diz) muitas vezes nem saberiam se estão
passando entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
arrasta consigo pelos dois reinos
todas as idades e em ambos lhe sobrepuja o som.
Por fim, já não têm necessidade de nós, os jovens
que a morte ceifou. Com docura se perdem os hábitos das coisas terrestres
assim como é com ternura que o crescimento
afasta o seio materno. Mas nós, que necessitamos
de tão grandes mistérios, nós de quem surge, tantas vezes, por luto,
um progresso milagroso - : poderíamos existir sem eles?
Será vã a lenda de Lino, durante as lamentações por sua morte,
a primeira música ousou penetrar a rigidez da matéria
e então, no espaço cheio de espanto onde o jovem quase divino
repentinamente desapareceu para sempre, o vazio começou a vibrar
naquele ritmo que agora nos arrebata, nos consola e nos ajuda."
(Rainer Maria Rilke. a Primeira Elegia de Duíno. rilke não é poeta, é profeta. isso sou eu, agora. talvez só por enquanto. só talvez.)
"Se gritasse, quem das legiões de anjos escutaria
o grito? E mesmo se, inesperadamente,
um deles me acolhesse no coração: sucumbiria à sua
existência mais forte! Pois o belo não é senão
o princípio do espanto que mal conseguimos suportar,
e ainda assim, o admiramos porque, sereno,
deixa de nos destruir. Todo anjo é espantoso.
E por isso me contenho e refreio o apelo
de um soluço obscuro. Então quem
nos poderia valer? Anjos, não, homens, não,
e os animais inventivos logo se apercebem
de que não nos sentimos muito em casa
no mundo das explicações. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta, para vermos e revermos
todos os dias. Resta-nos a estrada de ontem
e o apelo mimado de um hábito
que por nós se afeiçoou, permaneceu e não foi embora.
E a noite, a noite quando o vento cheio de espaços do mundo
nos desgasta a face - para quem ela não saberia ser desejo e suave decepção,
ela, cuja proximidade pesa sobre
o coração solitário! Será mais leve para os amantes?
Juntos, eles apenas encobrem um para o outro seu destino.
Ainda não sabias? Lança o vazio aprisionado nos braços
para os espaços que respiramos! Talvez os pássaros sintam,
num vôo de maior intimidade, o ar mais amplo.
É, na verdade, as primaveras se valem de ti. Muitas estrelas
te dão coragem para percebê-las. Do passado,
levantou-se uma onda, vindo em tua direção, ou,
ao passares por uma janela aberta,
um violino se entregou a ti. Tudo isso era vocação.
Será que respondeste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo anunciasse
uma amada? (Onde queres abrigá-la,
quando pensamentos grandes e estranhos entram e saem
de ti e na maioria das vezes ficam contigo à noite.)
Na saudade, canta os amantes; está muito
longe de ser imortal sua celebrada ternura.
As abandonadas, tu quase as inveja, elas,
que sentiste mais amorosas do que satisfeitas. Recomeça
sempre de novo a cantar o louvor que nunca se esgota.
Pensa: o herói se contém, até o ocaso
é motivo para o último nascimento.
Mas os amantes, a natureza esgotada
os recolhe, como se já não houvesse duas vezes as forças
para tal desempenho. Já pensaste suficiente em Gaspara Stampa
a ponto de toda jovem abandonada
sentir no poderoso exemplo desta amante
o desejo de ser como ela?
Estas dores, as mais antigas de todas, não deveriam enfim
tornar-se mais fecundas? Não já é tempo de, amando,
nos libertar e, tremendo, resistir ao amado:
como a flecha resiste à corda a fim de, toda concentrada no impulso,
ser mais do que ela mesma? Pois em parte alguma há permanência.
Vozes, vozes! Escuta meu coração, como outrora somente
santos escutavam: a ponto de o apelo vigoroso
os levantar do chão; e, impossíveis,
continuarem ajoelhados e nem se aperceberem:
tanta era a escuta. Não que possas suportar a voz de Deus,
de forma alguma. Mas escuta o que suspira
a mensagem ininterrupta que se forma do silêncio.
UM sussurrosobe agora para ti daqueles jovens mortos.
Em todos os lugares em que entraste, nas igrejas de Roma e
de Nápoles, não te chegava o apelo sereno de teu destino?
Ou uma inscrição não te impunha sua altivez,
como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa!
O que querem de mim? Em silêncio devo depor a máscara
de injustiça que muitas vezes impede
um pouco o movimento puro de seus espíritos.
É estranho, sem dúvida, já não habitar a terra,
já não seguir os costumes que mal foram aprendidos,
já não dar às rosas e às outras coisas, grávidas de
promessas, a significação do futuro humano;
já não ser o que era na angústia infinita
de mãos e abandonar até o próprio nome,
como um brinquedo quebrado.
É estranho já não desejar os desejos. Estranho
ver pairar, solto no espaço,
tudo que se relacionava. Estar morto é trabalhoso
e cheio de repetições para, aos poucos, sentir
uma parcela da eternidade. - Mas todos os vivos cometem
o erro de fazerem distinções muito fortes.
Anjos (assim se diz) muitas vezes nem saberiam se estão
passando entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
arrasta consigo pelos dois reinos
todas as idades e em ambos lhe sobrepuja o som.
Por fim, já não têm necessidade de nós, os jovens
que a morte ceifou. Com docura se perdem os hábitos das coisas terrestres
assim como é com ternura que o crescimento
afasta o seio materno. Mas nós, que necessitamos
de tão grandes mistérios, nós de quem surge, tantas vezes, por luto,
um progresso milagroso - : poderíamos existir sem eles?
Será vã a lenda de Lino, durante as lamentações por sua morte,
a primeira música ousou penetrar a rigidez da matéria
e então, no espaço cheio de espanto onde o jovem quase divino
repentinamente desapareceu para sempre, o vazio começou a vibrar
naquele ritmo que agora nos arrebata, nos consola e nos ajuda."
(Rainer Maria Rilke. a Primeira Elegia de Duíno. rilke não é poeta, é profeta. isso sou eu, agora. talvez só por enquanto. só talvez.)
24 de maio de 2005
...
é uma carta. o destinatário não quis receber.
talvez esse seja o ponto final. talvez seja pretensão minha. talvez um dia chegue ao destino. talvez já tenha chegado. enfim.
talvez tudo seja pretensão minha.
enfim.
o amor é o fio. as andorinhas é que mudam.
meu anjo;
escrevo sem saber muito bem se isso vai ou não um dia chegar a você. mesmo que eu mande, mesmo que você leia, se mesmo assim o que eu escrevo vai chegar a você. escrevo não sei ainda muito bem por que; se porque acho que preciso dizer, se porque acho que você precisa ouvir. acho que um pouco dos dois.
e não entendo por que ainda não consigo deixar de querer dizer. melhor: por que ainda não consigo deixar de querer dizer A VOCÊ. deveriam me bastar as pessoas, todas essas outras pessoas que querem saber, todas essas pessoas que querem me ouvir. que me ouvem. não, ainda não bastam. ainda preciso dizer a você.
e por mais que precise dizer, penso que não diria, caso achasse que fosse fazer mal a você ouvir.
talvez seja que me sinto culpada. mas calma, que eu já explico.
os momentos escorrem lentos longe de você. entenda, não é que seja difícil, propriamente. é lento.
então: não tenho que destruir você dentro de mim. não tenho precisado desconstruir o você bonito que tinha, sempre tive, dentro de mim. não tem sido necessário me dizer mentiras a seu respeito, todas as mentiras que a gente se diz quando precisa matar alguém dentro da gente. ainda que me dissesse, e tentei dizer, seriam mentiras. eu saberia disso. eu sei.
acho que por isso tem sido lento, por isso os momentos escorrem lentos. vivemos tudo o que vivemos, lembro de você, lembro de tudo o que vivemos. tudo o que vivemos me parece bom e bonito e como algo gostei de ter vivido. não questiono, não me forço a me sentir de outro jeito, a ter raiva, a ter ódio. às vezes são momentos de alegria, esses em que você me vem. outros são doces. outros são melancólicos. outros são doloridos. aceito. deixo que vocême venha, quando quer que você me venha, como quer que você me venha. não distorço o você que me vem.
e sei que, contudo, com tudo, quero você comigo. não o que tínhamos, não nosso nós de ontem, não. tenho para mim com certo grau de certeza que isso não é mais possível. que não é mais o que eu quero.
mas sei que ainda quero sua voz, seu beijo, sua presença. sei que sinto falta da sua presença. da sua presença física concreta real. sei que sinto falta de ter você comigo. não sei se é porque ainda não superei, ou se éexatamente PORQUE superei. ou se é porque o você que me vem é mais doce que amargo. não sei. não me importa. minha tarefa é isso, agora, essa sua ausência. vivê-la. ser feliz no processo. aproximo-me disso.
a cada dia que passa sinto menos urgência de você. a cada dia que passa fico melhor nessa tarefa. essa tarefa pouco a pouco deixa de resumir minha vida longe de você.
a cada dia que passa fico melhor na tarefa, difícil tarefa, de viver sem você.
tem sido bom, ruim, o que quer que seja. tem sido isso: a vida. há vida longe de você. e há sorrisos lágrimas abraços toques amores longe de você. sei disso. sim, sempre soube disso. mas SEI disso, agora. ainda que preferisse não estar longe de você.
sei que mais e mais momentos escorrerão menos e menos lentos. que a vida será, e que, fora me matar, não há muito que eu possa fazer a respeito. não vou me matar. pelo menos, não por isso. há ainda muito de bonito de belo de trágico ao meu redor, me impedindo, segurando minha mão. dizendo fique, ainda temos muito a nos mostrar. então fico. e sei. sei que a vida será, que eu tentarei aprender a ser junto, que eu me tornarei melhor e melhor em ser junto com a vida. jáestou me tornando.
é aqui, agora, que eu começo a falar pra VOCÊ. não escrevo pra te contar as coisas que acabei de dizer, isso foi prólogo. escrevo porque me convenço que tenho coisas a dizer que vocêdeveria, quereria, gostaria de ouvir. escrevo porque sou arrogante. porque, na minha inesgotável arrogância (nós dois sabemos que, no fundo do fundo, eu sou mesmo de uma arrogância inesgotável), me parece certo que isso que tenho a dizer seja, pra você, algo, no mínimo, levemente agradável de ouvir.
a verdade é que percebo. percebo. a cada dia que escorre e que me traz mais longe do que me dói a sua falta, a cada instante em que sinto menos essa sua falta, a cada vez que me lembro de você e lembrar de você me pesa menos. a verdade éque, a cada um desses momentos, toda vez que você me vem: é mais com sorrisos, menos com lágrimas. a cada vez que você me vem, vejo mais nítido o contorno, mais fortes as cores, mais bela a imagem. a cada vez que vocême vem, percebo melhor o bem que você me fez.
sou uma pessoa melhor depois de você, e isso fica mais e mais claro a cada dia, aparece melhor a cada dia. antes de você, eu tinha muito medo. de tudo. de não ser amada, não ser querida, de não ser suficiente. de ser engolida pelo mundo grande e duro e mau que existe fora de mim. medo de tudo, tudo, tudo. de todos. principalmente, de todos. eu não era suficiente.
entenda: não é que você tenha me tornado suficiente. você não me tornou nada, e eu provavelmente já era suficiente antes de você. também sei disso. é que você me mostrou isso. vocême mostrou a pessoa que eu quero ser. eu me vi refletida nos seus olhos. você me mostrou. você, o encontro com você, a forma como nós chorávamos gritávamos gargalhávamos silenciávamos gemíamos juntos, tudo com você, tudo. tudo: mostrou que essencialmente é isso que eu sou. que eu estou caminhando pra isso, pra ser a pessoa que eu quero ser, que em grande parte já sou, que estarei mais e mais perto disso (parte do que eu quero ser éisso, esse estar sempre caminhando, dando um passinho, depois outro, depois outro ainda, e só parar quando não houver mais eu pra caminhar. parte do que eu quero é continuar querendo.)
você foi a primeira pessoa pra quem eu me mostrei o tanto que eu me mostrei pra você. você foi a primeira pessoa que viu o tanto que eu mostrei de mim pra você. vocêfoi a primeira pessoa que me amou, contudo, com tudo, com o tanto que eu mostrei pra você. você foi a primeira pessoa que ME amou. você me amou. VOCÊ ME AMOU.
porque eu já tinha amado muito antes de você. mas talvez nunca tenha sido vista E amada antes de você. talvez nunca tenha sido amada antes de você.
melhor: acho que nunca me percebi amada antes de você.
mais: eu nunca tinha persistido no amor depois de terminado o encontro.
eu nunca persisti no amor depois de terminado o encontro. e talvez também isso tenha mudado com você.
acho que nunca pensei que nada disso fosse possível.
e você me mostrou, é possível. é possível. é possível.
e agora eu sei. é possível.
é possível estar no mundo. é possível que eu seja amada por alguém que eu verdadeiramente ame. é possível que isso, que tudo, não desmorone de todo quando o encontro terminar. é possível que não sobre pra mim depois de tudo o que eu viver só o que eu carrego comigo. é possível que eu só queira verdadeiramente o que eu carrego comigo. é possível que eu queira apenas o meu próprio horizonte e que seja bom que só eu esteja nele. é possível. épossível, isso da vida. é possível.
A VIDA É POSSÍVEL.
e é possível que eu seja feliz na vida. ter estado com você me colocou mais perto disso, de ser uma pessoa segura, plena, feliz. ter estado com você me fez uma pessoa um pouco (ou um tanto) mais POSSÍVEL. eu sou uma pessoa possível (ou viável, não é isso que dizem dos fetos? estou sendo gestada. sou um feto um pouco mais viável por sua causa. talvez, um dia, até, chegue a nascer eu, essa pessoa que quero, que um dia vou, que talvez chegue a ser. talvez um dia eu nasça a pessoa que quero ser).
há, sim, conclusões amargas que decorrem da sua falta, não digo, não posso dizer, que não. há dor. há aquilo que eu vejo, que gostaria de não ver, que talvez quisesse que nunca me tivessem mostrado. há o amargo, mas o amargo não interessa aqui. não entrarei nos detalhes do amargo. não é ele o que tenho a dizer a você.
o que tenho a dizer a você é:
obrigada. obrigada. obrigada. por tudo isso, por tudo o mais. por todo o mais do bem que eu descobri, estou descobrindo, ainda vou descobrir, que ter encontrado você um dia me fez. OBRIGADA.
não, nada disso é definitivo, outras questões surgirão, pode não ser nada disso. a vida não é definitiva, a vida está sendo, eu estou sendo junto. eu não sou definitiva.
mas agora é o que é pra mim, e queria dizer isso que é pra mim. agora, sem você, pareço-me uma pessoa melhor do que era antes de você.
é aí que entra a tal culpa. não sei como você está, não sei suas aflições, não sei nada sobre você. não sei se você se parece uma pessoa melhor agora, depois de mim. não sei. e você não quer que eu saiba. tudo bem, estou bem, fico melhor e melhor, continuarei ficando. apesar disso. talvez até um pouco por isso.
mas me sinto culpada: por estar cada vez melhor, por não saber se o mesmo acontece pra você. acho que isso que tenho a dizer pode ajudar, pode ser bom, pode fazer bem a você também.
é, talvez não faça. talvez você já esteja bem longe do que vivemos, talvez esse seu jeito de lidar com tudo, essa distância, esse enterrar todos os resquícios dos seus cadáveres, talvez isso tudo que você faça pra partir perdoar superar esquecer caminhar continuar caminhando, talvez isso seja mesmo o melhor pra você. talvez esse meu dizer seja só eu exumando um dos seus cadáveres e trazendo mais dor a você. não sei se é. não quero que seja, espero que não seja, deus permita que não seja. deus permita que eu não cause mais dor ainda a você. porque quero tanto pra você esse tanto que você me deu. esse bem.
escrevo porque genuinamente acredito que você deve ouvir isso: que você me fez bem, um bem absurdo, um bem tremendo. que eu não tenho ódio de você, que não tenho raiva de você, que a cada dia tenho mais amor por você, mais gratidão a você. gratidão por isso de tão único que você me deu. a capacidade de ser. de não estar perseguindo infinitamente o fantasma do que eu achava que queria ser. de me bastar. a cada dia que passa me vejo melhor, e sei, sei que isso teve alguma coisa a ver com você. porque era diferente antes de você. porque é melhor, tão melhor, eu sou tão melhor, agora, depois de você.
acredito genuinamente que saber disso pode ajudar você a me enterrar melhor. deus me perdoe se não for assim. e me perdoe você, se não for assim.
você me disse uma vez que podia morrer em paz, que já semeou muito amor pelo mundo, que já marcou a vida, o coração de muita gente. esteja em paz, meu anjo. você marcou a minha vida, o meu coração. tão indelevelmente.
você também me disse que se talvez você viesse a me decepcionar, eu não iria amar você o tanto que eu amava. pelo menos por agora, você estava certo: amo você mais. quanto mais me afasto da dor, melhor e mais nítido isso me fica. sim, o amor mudou, está mudando, não sei o que vai ser no final, sequer se vai ser amor
(mas o que a gente realmente sabe do final, no final? a gente não sabe sequer se há, se não há, final).
não sei o que vai ser disso que sinto por você, não sei. mas sei que amo você agora.
o que fica mais claro a cada dia é:
a cada dia percebo em mim mais um pedaço da pessoa que quero ser. e amo você por isso. e obrigada por isso.
no mais, citando outrem, o passado é prólogo.
viver de passado, de futuro, é chegar sempre inacabado ao presente. abandonar a esperança, deixar de aguardar pedir implorar por um infinito algo que foi será seria (quem sabe? eu não), chegar ao presente, segurá-lo em nossas mão, senti-lo escorrendo: é o impossível.
mas agora me parece possível. agora me sinto mais pronta pra tentar.
amo você demais. além, no além de tudo, nas fronteiras do que sei. amo você.
seja muito, muito, muito feliz. quero poder fazer tudo, tudo mesmo, que estiver ao meu alcance pra levar você pra mais perto disso. mesmo que seja nunca mais estar perto de você.
SEJA FELIZ.
e ame.
é uma carta. o destinatário não quis receber.
talvez esse seja o ponto final. talvez seja pretensão minha. talvez um dia chegue ao destino. talvez já tenha chegado. enfim.
talvez tudo seja pretensão minha.
enfim.
o amor é o fio. as andorinhas é que mudam.
meu anjo;
escrevo sem saber muito bem se isso vai ou não um dia chegar a você. mesmo que eu mande, mesmo que você leia, se mesmo assim o que eu escrevo vai chegar a você. escrevo não sei ainda muito bem por que; se porque acho que preciso dizer, se porque acho que você precisa ouvir. acho que um pouco dos dois.
e não entendo por que ainda não consigo deixar de querer dizer. melhor: por que ainda não consigo deixar de querer dizer A VOCÊ. deveriam me bastar as pessoas, todas essas outras pessoas que querem saber, todas essas pessoas que querem me ouvir. que me ouvem. não, ainda não bastam. ainda preciso dizer a você.
e por mais que precise dizer, penso que não diria, caso achasse que fosse fazer mal a você ouvir.
talvez seja que me sinto culpada. mas calma, que eu já explico.
os momentos escorrem lentos longe de você. entenda, não é que seja difícil, propriamente. é lento.
então: não tenho que destruir você dentro de mim. não tenho precisado desconstruir o você bonito que tinha, sempre tive, dentro de mim. não tem sido necessário me dizer mentiras a seu respeito, todas as mentiras que a gente se diz quando precisa matar alguém dentro da gente. ainda que me dissesse, e tentei dizer, seriam mentiras. eu saberia disso. eu sei.
acho que por isso tem sido lento, por isso os momentos escorrem lentos. vivemos tudo o que vivemos, lembro de você, lembro de tudo o que vivemos. tudo o que vivemos me parece bom e bonito e como algo gostei de ter vivido. não questiono, não me forço a me sentir de outro jeito, a ter raiva, a ter ódio. às vezes são momentos de alegria, esses em que você me vem. outros são doces. outros são melancólicos. outros são doloridos. aceito. deixo que vocême venha, quando quer que você me venha, como quer que você me venha. não distorço o você que me vem.
e sei que, contudo, com tudo, quero você comigo. não o que tínhamos, não nosso nós de ontem, não. tenho para mim com certo grau de certeza que isso não é mais possível. que não é mais o que eu quero.
mas sei que ainda quero sua voz, seu beijo, sua presença. sei que sinto falta da sua presença. da sua presença física concreta real. sei que sinto falta de ter você comigo. não sei se é porque ainda não superei, ou se éexatamente PORQUE superei. ou se é porque o você que me vem é mais doce que amargo. não sei. não me importa. minha tarefa é isso, agora, essa sua ausência. vivê-la. ser feliz no processo. aproximo-me disso.
a cada dia que passa sinto menos urgência de você. a cada dia que passa fico melhor nessa tarefa. essa tarefa pouco a pouco deixa de resumir minha vida longe de você.
a cada dia que passa fico melhor na tarefa, difícil tarefa, de viver sem você.
tem sido bom, ruim, o que quer que seja. tem sido isso: a vida. há vida longe de você. e há sorrisos lágrimas abraços toques amores longe de você. sei disso. sim, sempre soube disso. mas SEI disso, agora. ainda que preferisse não estar longe de você.
sei que mais e mais momentos escorrerão menos e menos lentos. que a vida será, e que, fora me matar, não há muito que eu possa fazer a respeito. não vou me matar. pelo menos, não por isso. há ainda muito de bonito de belo de trágico ao meu redor, me impedindo, segurando minha mão. dizendo fique, ainda temos muito a nos mostrar. então fico. e sei. sei que a vida será, que eu tentarei aprender a ser junto, que eu me tornarei melhor e melhor em ser junto com a vida. jáestou me tornando.
é aqui, agora, que eu começo a falar pra VOCÊ. não escrevo pra te contar as coisas que acabei de dizer, isso foi prólogo. escrevo porque me convenço que tenho coisas a dizer que vocêdeveria, quereria, gostaria de ouvir. escrevo porque sou arrogante. porque, na minha inesgotável arrogância (nós dois sabemos que, no fundo do fundo, eu sou mesmo de uma arrogância inesgotável), me parece certo que isso que tenho a dizer seja, pra você, algo, no mínimo, levemente agradável de ouvir.
a verdade é que percebo. percebo. a cada dia que escorre e que me traz mais longe do que me dói a sua falta, a cada instante em que sinto menos essa sua falta, a cada vez que me lembro de você e lembrar de você me pesa menos. a verdade éque, a cada um desses momentos, toda vez que você me vem: é mais com sorrisos, menos com lágrimas. a cada vez que você me vem, vejo mais nítido o contorno, mais fortes as cores, mais bela a imagem. a cada vez que vocême vem, percebo melhor o bem que você me fez.
sou uma pessoa melhor depois de você, e isso fica mais e mais claro a cada dia, aparece melhor a cada dia. antes de você, eu tinha muito medo. de tudo. de não ser amada, não ser querida, de não ser suficiente. de ser engolida pelo mundo grande e duro e mau que existe fora de mim. medo de tudo, tudo, tudo. de todos. principalmente, de todos. eu não era suficiente.
entenda: não é que você tenha me tornado suficiente. você não me tornou nada, e eu provavelmente já era suficiente antes de você. também sei disso. é que você me mostrou isso. vocême mostrou a pessoa que eu quero ser. eu me vi refletida nos seus olhos. você me mostrou. você, o encontro com você, a forma como nós chorávamos gritávamos gargalhávamos silenciávamos gemíamos juntos, tudo com você, tudo. tudo: mostrou que essencialmente é isso que eu sou. que eu estou caminhando pra isso, pra ser a pessoa que eu quero ser, que em grande parte já sou, que estarei mais e mais perto disso (parte do que eu quero ser éisso, esse estar sempre caminhando, dando um passinho, depois outro, depois outro ainda, e só parar quando não houver mais eu pra caminhar. parte do que eu quero é continuar querendo.)
você foi a primeira pessoa pra quem eu me mostrei o tanto que eu me mostrei pra você. você foi a primeira pessoa que viu o tanto que eu mostrei de mim pra você. vocêfoi a primeira pessoa que me amou, contudo, com tudo, com o tanto que eu mostrei pra você. você foi a primeira pessoa que ME amou. você me amou. VOCÊ ME AMOU.
porque eu já tinha amado muito antes de você. mas talvez nunca tenha sido vista E amada antes de você. talvez nunca tenha sido amada antes de você.
melhor: acho que nunca me percebi amada antes de você.
mais: eu nunca tinha persistido no amor depois de terminado o encontro.
eu nunca persisti no amor depois de terminado o encontro. e talvez também isso tenha mudado com você.
acho que nunca pensei que nada disso fosse possível.
e você me mostrou, é possível. é possível. é possível.
e agora eu sei. é possível.
é possível estar no mundo. é possível que eu seja amada por alguém que eu verdadeiramente ame. é possível que isso, que tudo, não desmorone de todo quando o encontro terminar. é possível que não sobre pra mim depois de tudo o que eu viver só o que eu carrego comigo. é possível que eu só queira verdadeiramente o que eu carrego comigo. é possível que eu queira apenas o meu próprio horizonte e que seja bom que só eu esteja nele. é possível. épossível, isso da vida. é possível.
A VIDA É POSSÍVEL.
e é possível que eu seja feliz na vida. ter estado com você me colocou mais perto disso, de ser uma pessoa segura, plena, feliz. ter estado com você me fez uma pessoa um pouco (ou um tanto) mais POSSÍVEL. eu sou uma pessoa possível (ou viável, não é isso que dizem dos fetos? estou sendo gestada. sou um feto um pouco mais viável por sua causa. talvez, um dia, até, chegue a nascer eu, essa pessoa que quero, que um dia vou, que talvez chegue a ser. talvez um dia eu nasça a pessoa que quero ser).
há, sim, conclusões amargas que decorrem da sua falta, não digo, não posso dizer, que não. há dor. há aquilo que eu vejo, que gostaria de não ver, que talvez quisesse que nunca me tivessem mostrado. há o amargo, mas o amargo não interessa aqui. não entrarei nos detalhes do amargo. não é ele o que tenho a dizer a você.
o que tenho a dizer a você é:
obrigada. obrigada. obrigada. por tudo isso, por tudo o mais. por todo o mais do bem que eu descobri, estou descobrindo, ainda vou descobrir, que ter encontrado você um dia me fez. OBRIGADA.
não, nada disso é definitivo, outras questões surgirão, pode não ser nada disso. a vida não é definitiva, a vida está sendo, eu estou sendo junto. eu não sou definitiva.
mas agora é o que é pra mim, e queria dizer isso que é pra mim. agora, sem você, pareço-me uma pessoa melhor do que era antes de você.
é aí que entra a tal culpa. não sei como você está, não sei suas aflições, não sei nada sobre você. não sei se você se parece uma pessoa melhor agora, depois de mim. não sei. e você não quer que eu saiba. tudo bem, estou bem, fico melhor e melhor, continuarei ficando. apesar disso. talvez até um pouco por isso.
mas me sinto culpada: por estar cada vez melhor, por não saber se o mesmo acontece pra você. acho que isso que tenho a dizer pode ajudar, pode ser bom, pode fazer bem a você também.
é, talvez não faça. talvez você já esteja bem longe do que vivemos, talvez esse seu jeito de lidar com tudo, essa distância, esse enterrar todos os resquícios dos seus cadáveres, talvez isso tudo que você faça pra partir perdoar superar esquecer caminhar continuar caminhando, talvez isso seja mesmo o melhor pra você. talvez esse meu dizer seja só eu exumando um dos seus cadáveres e trazendo mais dor a você. não sei se é. não quero que seja, espero que não seja, deus permita que não seja. deus permita que eu não cause mais dor ainda a você. porque quero tanto pra você esse tanto que você me deu. esse bem.
escrevo porque genuinamente acredito que você deve ouvir isso: que você me fez bem, um bem absurdo, um bem tremendo. que eu não tenho ódio de você, que não tenho raiva de você, que a cada dia tenho mais amor por você, mais gratidão a você. gratidão por isso de tão único que você me deu. a capacidade de ser. de não estar perseguindo infinitamente o fantasma do que eu achava que queria ser. de me bastar. a cada dia que passa me vejo melhor, e sei, sei que isso teve alguma coisa a ver com você. porque era diferente antes de você. porque é melhor, tão melhor, eu sou tão melhor, agora, depois de você.
acredito genuinamente que saber disso pode ajudar você a me enterrar melhor. deus me perdoe se não for assim. e me perdoe você, se não for assim.
você me disse uma vez que podia morrer em paz, que já semeou muito amor pelo mundo, que já marcou a vida, o coração de muita gente. esteja em paz, meu anjo. você marcou a minha vida, o meu coração. tão indelevelmente.
você também me disse que se talvez você viesse a me decepcionar, eu não iria amar você o tanto que eu amava. pelo menos por agora, você estava certo: amo você mais. quanto mais me afasto da dor, melhor e mais nítido isso me fica. sim, o amor mudou, está mudando, não sei o que vai ser no final, sequer se vai ser amor
(mas o que a gente realmente sabe do final, no final? a gente não sabe sequer se há, se não há, final).
não sei o que vai ser disso que sinto por você, não sei. mas sei que amo você agora.
o que fica mais claro a cada dia é:
a cada dia percebo em mim mais um pedaço da pessoa que quero ser. e amo você por isso. e obrigada por isso.
no mais, citando outrem, o passado é prólogo.
viver de passado, de futuro, é chegar sempre inacabado ao presente. abandonar a esperança, deixar de aguardar pedir implorar por um infinito algo que foi será seria (quem sabe? eu não), chegar ao presente, segurá-lo em nossas mão, senti-lo escorrendo: é o impossível.
mas agora me parece possível. agora me sinto mais pronta pra tentar.
amo você demais. além, no além de tudo, nas fronteiras do que sei. amo você.
seja muito, muito, muito feliz. quero poder fazer tudo, tudo mesmo, que estiver ao meu alcance pra levar você pra mais perto disso. mesmo que seja nunca mais estar perto de você.
SEJA FELIZ.
e ame.
22 de maio de 2005
...
"Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
Até parece mentira,
tudo parecia alguma coisa.
O tempo parecia pouco,
e a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo,
parecia prazer.
Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
Mas vice versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
com a tragédia encenada.
Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem."
(Paulo Leminski, in Distraídos Venceremos)
"Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
Até parece mentira,
tudo parecia alguma coisa.
O tempo parecia pouco,
e a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo,
parecia prazer.
Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
Mas vice versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
com a tragédia encenada.
Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem."
(Paulo Leminski, in Distraídos Venceremos)
...
à medida que avanço o que vejo fica mais e mais incompreensível. sempre achei que seria o contrário. mas não. não sei se é alguma espécie de maturação, se não compreendo porque finalmente vejo que experimento e vejo que a experiência é insuscetível de cognição. me parece que talvez seja isso.
mas vejo que também esse ver a insuscetibilidade de cognição da experiência é buscar cognição da mesma experiência que vejo insuscetível de cognição. volto ao passo um do tabuleiro, passou minha vez de jogar os dados.
também me parece que sou insuscetível de alcançar o mundo despida de cognição. então conheço, raciocino, racionalizo, reconheço. a inutilidade de conhecer raciocinar racionalizar reconhecer. reconheço a inutilidade da compreensão enquanto compreendo. abandono a compreensão e me esforço por compreender de novo. e jogo os dados, ando no tabuleiro, retorno à primeira casa. denovo. denovo jogo os dados. de novo. talvez seja a isso que a vida se resume. jogar os dados. avançar no tabuleiro. retornar à primeira casa. reconhecer a inutilidade de se mover no tabuleiro enquanto nos movemos no tabuleiro enquanto reconhecemos a inutilidade de reconhecer a inutilidade de se mover no tabuleiro
talvez seja apenas nos mover no tabuleiro. talvez seja isso a vida. talvez aquilo que chamamos de deus seja o adversário no jogo. não sei. não compreendo enquanto compreendo e talvez um dia consiga não mais tentar ou conseguir compreender.
talvez um dia deus me deixe alcançar a última casa.
jogo os dados.
à medida que avanço o que vejo fica mais e mais incompreensível. sempre achei que seria o contrário. mas não. não sei se é alguma espécie de maturação, se não compreendo porque finalmente vejo que experimento e vejo que a experiência é insuscetível de cognição. me parece que talvez seja isso.
mas vejo que também esse ver a insuscetibilidade de cognição da experiência é buscar cognição da mesma experiência que vejo insuscetível de cognição. volto ao passo um do tabuleiro, passou minha vez de jogar os dados.
também me parece que sou insuscetível de alcançar o mundo despida de cognição. então conheço, raciocino, racionalizo, reconheço. a inutilidade de conhecer raciocinar racionalizar reconhecer. reconheço a inutilidade da compreensão enquanto compreendo. abandono a compreensão e me esforço por compreender de novo. e jogo os dados, ando no tabuleiro, retorno à primeira casa. denovo. denovo jogo os dados. de novo. talvez seja a isso que a vida se resume. jogar os dados. avançar no tabuleiro. retornar à primeira casa. reconhecer a inutilidade de se mover no tabuleiro enquanto nos movemos no tabuleiro enquanto reconhecemos a inutilidade de reconhecer a inutilidade de se mover no tabuleiro
talvez seja apenas nos mover no tabuleiro. talvez seja isso a vida. talvez aquilo que chamamos de deus seja o adversário no jogo. não sei. não compreendo enquanto compreendo e talvez um dia consiga não mais tentar ou conseguir compreender.
talvez um dia deus me deixe alcançar a última casa.
jogo os dados.
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