1 de abril de 2008

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eu tinha cortes nos calcanhares. imagino. algo assim. cortes. pequenos cortes. havia pontos. havia uma ferida. havia que fechar a ferida. havia um curativo. depois de um tempo voltei ao médico, que removeu o curativo para feridas ainda maiores, calcanhares cobertos de sangue vermelho vivo, uma hemorragia que não cessava. o médico advertiu, se não fechar, será necessária uma cirurgia. vamos acompanhar. não acompanhamos. voltei depois, muito tempo, tanto tempo. sem saber muito bem por que tanto tempo. por que o médico não tinha cuidado de meus calcanhares. por que eu não tinha cuidado dos meus calcanhares. não cuidei. não fui cuidada. retornei. removidos de outra feita os curativos. meus calcanhares desagregados, putrefeitos, sangue vermelho escuro, feridas brancas, vazios de carne em dissolução e descolamento.
passei o dia taquicárdica do vazio putrefeito de meus calcanhares. olhando pra baixo, checando se ainda tinha pés. se ainda tinha calcanhares.
tenho.

31 de janeiro de 2008

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meu avô materno era ourives. faleceu no final do ano passado, deixou pra trás um filho morto, três filhos e esposa vivos, uma casa velha, algumas jóias de família. as que restaram, não se foram junto com anéis e alguns dedos depois de crises de petróleo, planos cruzados, cruzeiros e collores. em minhas mãos, na caixinha de jóias, no coração, restaram algumas. são poucas, singelas, de valor ínfimo. uns anéis, uns pingentes. outras, valiosíssimas. do tipo, o ensino universitário da minha mãe, que abriu caminho para o meu, para o do meu irmão. que abriu caminho para as coisas que tenho hoje, que sou hoje. que me tornei. do tipo (e essa jóia, exatamente, nem foi deixada pelo meu avô materno, mas me permitam a licença poética), o horizonte. esses valores. essa inteireza. essa verdade. essa sinceridade brutal, que me deixa um olhar ligeiramente, completamente, ensandecido e ensangüentado. sangue meu, sangue dos outros. sangue de todos.
daí que me dou conta. até pouco, muito pouco, pouquíssimo, tempo atrás, eu nunca tinha encontrado o mal. O MAL. digamos que eu vivia no olimpo, apesar do olimpo nunca parecer muito olímpico quando o olimpo é tudo o que se conhece. mas eu nunca tinha visto o hades. não, não é isso. o mal não é o hades, o hades é só um lugar pra guardar os mortos. o inferno, o inferno é só mais um lugar. o mal é o mal. eu, olímpica, solene desconhecida do mal, pensava, bah, não existe. exímia malabarista de discursos e de todos os relativismos possíveis. como se o mal fosse só uma invenção de alguém que quisesse dizer o que é um bem que também não existe, que quisesse me empurrar um bem que é mal goela abaixo feito xarope.
e não é. não é.
e é engraçado, parece ser o caminho inverso ao de todo mundo. ir ficando absoluta. ir vendo as coisas caírem, observando o que vai, o que fica. o que tem que ficar. o que não vai embora de jeito nenhum e passa a ser sua bússola. seu norte. as jóias de família que você não vende, não perde, não põe no prego. mas o mal.
o mal é aquilo que te embaralha, que te amputa horizontes, que usurpa nortes. que rouba as jóias de família que não se vendem. os alguns anéis que meu avô materno deixou. a educação universitária dos meus parentes. os valores. a inteireza. a verdade.
desci do olimpo justamente onde a humanidade provavelmente o encontra (o olimpo dos cegos deve ser lá onde ninguém enxerga nem vê). e o mal, esse ainda relativo desconhecido, ainda encoberto de infinitas meia luzes e muitas peles de cordeiro - ele se esconde e se esconde -, o mal quer me tomar a pessoa que me tornei. quer me arrancar essa sinceridade. quer me amansar e suturar o olhar, e me empurrar relativismos goela abaixo. feito xarope.
o mal quer, como quer, me amputar o horizonte.
o mal quer, como quer, que eu pense que ele não existe.
e eu.
eu não vou deixar.

29 de outubro de 2007

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"- so what happened? i mean how did you finally get out of it?

- oh man. it was just like one of those like life altering experiences. i mean i could never really look at the world the same way again, after that.


- yeah, but i mean like how did you, how did you finally get out of the dream? see, that's my problem. i'm like trapped. i keep, i keep thinking that I'm waking up, but I'm still in a dream. it seems like it's going on forever. i can't get out of it, and i want to wake up for real. how do you really wake up?


- i don't know, i don't know. i'm not very good at that anymore. but, um, if that's what you're thinking, i mean you, you probably should. i mean, you know if you can wake up, you should, because you know someday, you know, you won't be able to. so just, um ... but it's easy. you know. just, just wake up."


(recognize the problem? or is it just me?)

(from the same place)
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"actually, there's only one instant, and it's right now, and it's eternity. and it's an instant in which God is posing a question, and that question is basically, 'do you want to, you know, be one with eternity? do you want to be in heaven?' and we're all saying, 'no thank you. not just yet.' and so time is actually just this constant saying 'no' to God's invitation. i mean that's what time is. i mean, and it's no more 50 a.d. than it's two thousand and one. and there's just this one instant, and that's what we're always in.

and then she tells me that actually this is the narrative of everyone's life. that, you know, behind the phenomenal difference, there is but one story, and that's the story of moving from the 'no' to the 'yes'. all of life is like, 'no thank you. no thank you. no thank you.' then ultimately it's, 'yes, i give in. yes, i accept. yes, i embrace.' i mean, that's the journey. i mean, everyone gets to the 'yes' in the end, right?"

(right?)

(from the script of waking life)

5 de junho de 2007

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dive where the world bleeds white.
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"behind crystalline irises
loons can dive where the world bleeds white
just keep your eyes on her
keep
don't look away
keep your eyes on her horizon"

(tori amos)
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queria te dizer que surtei. surtei. mas não é isso. algo em mim foi. caiu. ficou pra trás. descolou. descolou. descolou. me decalquei. olhei, tenho olhado, a estrada daí diante, esse monte de apêndices grudados, esse monte de órgãos evolutivamente residuais que estão fazendo qual caralho em mim ainda. e descolam. descolaram. estão descolando. e o que vi, tenho visto, de estrada é isso, só isso. esse infinito (infinito não, deve ter fim em algum lugar, a arrogância de pensar que não termina só porque eu não vejo o fim) descolamento.
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algo assim, estar mergulhada de silêncio. observar os espaços que existem naquilo que se diz, que digo, observar os espaços. recebê-los. não é bem aceitá-los, que aceitar é de uma arrogância sem fim: como se me coubesse rejeitar. não cabe. mas é abrir o peito, não deixar o peito espernear com eles. é reconhecer que se está no meio deles, que na verdade são eles e não você, eu, o que prevalece. é você, eu, que está por aqui de visita, é você, eu, que está por aqui de favor. sou eu. é se reconhecer, me reconhecer, como som num universo que é só silêncio. e nem é que você, que eu, seja som, propriamente: parecemos ser, achamos que somos. não é bem achar, que achar é de uma arrogância sem fim: como se me coubesse achar. mas é ser incapaz de se perceber como algo que não seja som. é ser, sou, incapaz de se, me, perceber como o que é, sou. que é esse silêncio. esses silêncios. esses espaços entre aquilo que se diz, que digo, porque nada é dito, não existe som. é se reconhecer como um som que no fim vai virar silêncio, sempre foi, as coisas na eternidade acontecem todas ao mesmo tempo, a eternidade desconhece tempo. é se reconhecer num som que é silêncio, que sempre foi silêncio, mas que pra gente ainda vai virar silêncio, porque achamos que - somos incapazes de perceber que não - existe tempo. é se perceber num som que começa, grita, fica mais suave, vira fala, fica mais suave, vira sussurro, fica mais suave, não fica. não fica: vira silêncio. é se perceber num rio que vai afinando. afinando. afinando. de afinar desaparece. desaparece. vira nada sem virar porque sempre foi nada sem precisar virar. pra gente vira. é observar os espaços entre os ditos, os ditos virando os espaços entre os ditos. prevalecendo, prevalecendo, prevalecendo. até que não reste dito. não reste nada, eu, você. nada. só reste espaço.

10 de fevereiro de 2007

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interação verbal com tudo todos tão tão difícil. a palavra como bomba de fumaça, em vez de paladina da verdade, sua algoz. tem sido tão tortuoso comunicar a verdade que vejo. e o desejo de comunicar decantando, evaporando, talvez no final nada dele reste. vejo e digo e combatem o que digo e duvido do que digo e duvido do que vejo. e depois. depois de novo vejo. e vejo. e vejo. e sei. e não tenho dúvidas enquanto me ressinto das bombas de fumaça e daqueles que as atiraram. que as atiram.

melhor não dizer nada. assisto o movimento.
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é como assistir alguma mensagem se escrevendo no ar, assistir o movimento daquilo que ao final será a mensagem.
a mensagem sendo, questão de abandonar o verbo.

31 de janeiro de 2007

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"holding on for something
have you ever held on?
holding on for someone
feels like holding on too long

have you ever held on?

it's not me
i am pretending
i'm not saved, he turned me down
he turns down"


(chan marshall)
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umas obsessões sem sentido, toneladas de megawatts saindo de lugar nenhum, indo pra lugar nenhum, fluxo rápido constante desgovernado. e de repente puf: estoura a bolha da obsessão, desaparece o objeto. então piora. megawatts em suspensão. pairando. pendurados no teto. ruim esse desejo investido, pior esse desejo desinvestido. de uns tempos pra cá tem sido, não quero nada, quando quero quero desgovernada, e na verdade não quero e na verdade não sei e na verdade parece (parece?) que só quero qualquer coisa porque não querer o que quer que seja é pior.

me desinvesti esses dias. e ansiedade por cima de angústia por cima de vazio por cima de falta de sentido. aquela cobra que engole o próprio rabo. olho ao redor. tudo todos isso. cobras engolindo os próprios rabos.

tem que ter alguma coisa pra além disso, pra além desses micro universos mixurucas existindo em função de si mesmos, pra além dessas milhares e milhares de formigueiros e colméias que a gente cria e descria. tem que ter algo.

não pode não pode não pode ser só isso. não pode ser só gente mesquinhando em torno do próprio eixo. não pode.

não pode.
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me disseram hoje, a ansiedade vem do medo, medo da angústia. a angústia vem do medo, medo do vazio e da falta de sentido de tudo.
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"you don't miss your water
you don't miss your water
till your well is gone"

(chan marshall)
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"if time had a place,
a space for your past
like a little novel
i wanted to read again and again
would i be in your novel?
would i begin and end in it?"


(chan marshall)

11 de janeiro de 2007

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"i've seen the hordes, the hordes
looking down that drain of yours

intuition knocked again fair
all of you should know by now there's
not enough to go around

but i never go that way
other half of me says i should"


(chan marshall)
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... e eu sei eu sei eu sei que a questão toda está no querer, que é cirurgicamente ali que a bomba arma e desarma. mas saber tão bem sabido assim não me serve de coisa nenhuma, e essa natureza pegajosa do desejo que resiste a todas as minhas racionalizações desarmadoras de bombas, essa qualidade de ruído nas minhas sinapses, isso, isso eu já conhecia, já vi antes, já vi antes e antes, tantas vezes. tão tão castrante. eu sei onde a bomba desarma. e não desarma. cadê buda nessas horas. sei que isso que quero não é o que quero, que não quero nada na verdade enquanto penso que quero tudo que não tenho no mundo. sei que nada vai bastar, que nada vai servir. que nada serve. nada aplaca. nada cala. sei que nada quero, mas o que faço pra me dizer que nada quero. a falha de comunicação suprema: tudo que não consigo me dizer, me digo mas não consigo me fazer parar. e ouvir.

talvez. não consiga dizer porque. ainda não consigo me dizer.
não consigo me dizer.
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anda tão difícil dizer. parece beco sem saída dentro de beco sem saída, a vida sendo isso só, beco sem saída dentro de beco sem saída dentro de beco sem saída, feito aquelas bonequinhas russas, uma dentro da outra dentro da outra dentro da outra. dentro da outra. há saída, não há saída. não procuro. mas o querer saída. está lá. não procuro. mas procuro, como procuro. quero saída. que saída?

então. pergunta:o que massacra. a falta de saída, o querer saída onde não há? ou. só o querer? porque não sei. esse querer, anda sendo um querer tão desgovernado, um querer qualquer coisa que pareça, nem precisa parecer nada, só não se parecer com aquilo que tenho, identifico no que tenho imediatamente o beco, deixa de ser beco quando não tenho, então quero desgovernada o que deixei de ter também. e perco o volante. perco o volante de mim mesma tantas tantas vezes esses dias. tudo desgoverna, tudo se perde em algum lugar, tudo o que eu digo, tudo esses dias cai em algum lugar que não sei. tudo esses dias cai, não se levanta, cai. essa esterilidade do mundo, pra onde vai? que saída. algum lugar que. não sei.

essa esterilidade do mundo. e eu. quietinha. surto em estado bruto dentro de mim mesma. quietinha. sorridente. surto atrás de algum sorriso. desespero procurando saída nos becos, querendo não procurar, não acreditando em procurar, emulando um não procurar. e procurando.

esse gritar dentro de mim sem emitir um som. há tudo por dizer. não há nada pra dizer. não sei por que digo. ou não digo. digo. não digo. quero dizer.

que saída.

29 de outubro de 2006

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"my new friend plays drums all the time
her magic heart feels everything
she plays the difficult parts and i play difficult

if i could stand to be less difficult"


(chan marshall)

9 de outubro de 2006

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aliás.
toda nostalgia, como todo desejo, parece ser de algo que nunca esteve ali, exatamente. nada nada nada do que se alcança é exatamente o que se quer, e toda minha vida foi conseguir o que queria pra descobrir que não era nada daquilo o que eu queria. será diferente para os outros? sempre foi, tem sido, caminhar pela floresta em círculos cada vez mais largos e concêntricos atrás do caminho de casa. qual casa - a de onde me expulsaram pra que definhasse na selva, ou aquela feita de açúcar onde me aguarda a engorda, a morte? qual casa. melhores os círculos da floresta marcados com migalhas de pão que desaparecem por voracidade dos pássaros. melhores os círculos perdidos, continuo andando em círculos, jamais o caminho de casa, o caminho de casa seria o fim, fosse fome ou assassinato. qual casa. abdicar da nostalgia, abdicar do desejo, acolher no peito a idéia, apenas a idéia, de uma casa. fazer combustível para seguir nos círculos.