17 de dezembro de 2004

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computadores alheios me deixam tímida. não seguro o olhar, não sei onde colocar as mãos, minha voz sai baixa e nunca sai exatamente aquilo que quero dizer.

9 de dezembro de 2004

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mas descobri no meio tempo que todos os lugares são o mesmo lugar.

27 de novembro de 2004

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quando há mais a ser dito do que pode ser dito talvez o melhor seja que nada seja dito. e pra contradizer o que acabei de dizer, estou tentanto dizer. tem que a experiência está proxima e quando a experiência está próxima o verbo se afasta. voltei mas ainda estou voltando e talvez nao volte nunca. o well.
mas voltei mas ainda estou voltando mas não vou voltar nunca. mas volto. já volto.

19 de setembro de 2004

SO I GOT ME SOME HORSES TO RIDE ON

o problema da vergonhosa freqüência de atualização disso aqui (que, AHAM, não podia piorar? não podia, é?) possivelmente piorará no futuro próximo. estarei entre aviões trens albergues museus castelos línguas estrangeiras gentes estrangeiras eu estrangeira. oceanos luz de distância. sei que no mundo virtual não há distâncias. mas há distâncias onde há e não há distâncias. há distâncias entre as distâncias e abismos entre os abismos entre um e outro pontos que compõem todas as linhas telefônicas internéticas metafísicas que se cruzam. ou não. a conexão talvez role. talvez não. talvez eu escreva muito. talvez eu escreva nada. talvez eu publique tudo, muito, pouco, nada.

na dúvida, preparem-se para dois meses (que parecerão minutos? dias? anos? séculos? para vocês? para mim? para mim.) de ausência.
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no intervalo entre procurar aquilo que quero ler a seguir e encontrar aquilo que quero ler a seguir, ando lendo ana c. a normalidade é não gostar tanto assim de ana c., é achar ana c. meio assim assim. é achar que ana c. só fala pra ana c., achar ana c. hermética, não gostar do hermético, querer só o que vem fácil, o que cai no colo, o que fala o idioma sem intermediários, críticas, ensaios, traduções. e tem que ana c. é hermética, mas tem também que eu ando hermética, e tem talvez que nossos hermetismos andam se esbarrando por aí. idiomas que talvez andem coincidindo por aí. fato, muita coisa me escapa. mas, também, fato, eu não ando querendo capturar tudo. deixo escapar o que me escapa enquanto o que não me escapa me cai no colo por hermetismos que se esbarram e se revelam.

11 de agosto de 2004

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queria aprender a amar em silêncio, parece que não sei fazer mais nada em silêncio. amar deveria ser algo feito em silêncio. depois do primeiro eu te amo bradado aos sete ventos, o ar de novidade desaparece, depois do décimo, amarga-se a rotina. e eu brado cem, mil, dez milhões, tantas tantas tantas vezes. queria aprender a sentir em silêncio, a gemer em silêncio, a gritar em silêncio. queria aprender a não bradar, a não dizer, a não desnudar a alma a cada relance. queria aprender a amar sem palavras suspiros olhares. mas eu me desmancho me desfio me desfaço em brados discursos olhares suspiros palavras, tantas tantas palavras que não precisariam, que não deveriam. em nudez, em tanta nudez, em tão completa despudorada indefesa nudez. não sei fazer de outra forma: me desfaço. me faço. me desfaço. queria aprender a fazer diferente, a amar em silêncio, eu deveria amar em silêncio, e manter o mistério, e não me manter tão tão nua o tempo todo. eu deveria me manter em segredo. eu deveria me manter em silêncio.
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ando tentando desesperadamente mudar, desesperadamente tentando me manter a mesma. quero desesperadamente ser aquilo que querem que eu seja, mas esse querer é distante disforme difuso. estendo a mão na direção dele, quase o pego, e ele se afasta mais um pouco. de novo. e de novo. e de novo. e nada de novo: quando eu for o que desesperadamente quero ser, o que desesperadamente querem que eu seja, então quererão desesperadamente outra coisa, e eu quererei desesperadamente esta mesma outra coisa, e outra, e outra, e mais outra, e então. então. nunca serei o que querem de mim, nunca serei o que quero de mim. então. resta o que sou porque desesperadamente tentar mudar não me basta. então. só me resta o que sou. permaneço a mesma então. desesperadamente. enfim.

2 de agosto de 2004

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é como se eu jejuasse. falta música, falta poesia, falta lirismo. falta porque não estendo a mão na direção de nada disso. está tudo fechado na estante. sinto. falta. mergulho no silêncio. como se eu jejuasse.
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"coração
PRA CIMA
escrito embaixo
FRÁGIL"

(Paulo Leminski. comprei outra antologia de poemas dele esse fim de semana, na falta de uma das muitas edições originais que não tenho. cada vez me revolto mais com a escassez de coisas interessantes no mercado editorial brasileiro. paulo coelho, deus nos proteja, a gente encontra em qualquer lugar.)

18 de julho de 2004

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acho que estou numa fase visual: i've been craving for beauty lately. even the smallest piece of beauty. então andei saracoteando no ccbb, assistindo a sessões aleatórias no anima mundi e conferindo a exposição que pergunta onde diabos está a tal da geração oitenta de que eu nunca ouvi falar - e, pamem!, fiquei impressionada quando não esperava ficar nem um pouco impressionada. talvez seja só que a minha geração (a oitenta, ahá!)  se identifique sempre com qualquer coisa que tenha o mais ínfimo viés pop/pobre. não sei. também não me interessa. gostei.
 
também tentei ir no museu nacional de belas artes, pra ver a coleção das irmãs ema/eva klabin.  não deu. tenho que voltar no futuro próximo, antes que a mostra termine.
 
mas ando sentindo falta. tantas faltas. falta da falta. de estar no mundo, eu, o mundo, eu no mundo. de estar sozinha, brigando de foice pra nunca estar sozinha enquanto sinto falta de estar sozinha. i've been craving for loneliness lately. for beauty. for tragedy. for the very tragic beauty of being alone.
 
gosto desse verbo, to crave. em português, o ansiar por não tem o mesmo peso dramático. been craving for drama lately.
 
e ando dispersa. mas isso tudo bem. é assim que eu gosto. sempre que concentro minha energia, isso ende a virar implosão.
 
e chega. vou catar beleza lá fora.

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ando exercitando modos de boa menina, caras e bocas e olhos da moça doce educada polida que não sou, não faço questão de ser. não ando mordendo, caninos recolhidos na boca, inocentes formando o sorriso. não ando mordendo. ando gentil. ando quieta. ando mansa. e nessa de andar mansa, às vezes quase nem ando. fico. vou ficando. e nessa de ir ficando, às vezes fico em lugares onde não ficaria, não faria questão de ficar. mas vou ficando, rugindo um pouco por dentro, sorrindo um tanto por fora, como talvez fosse o jeito das damas de antigamente. vou exercitando modos de dama, de boa menina, e não sou dama. nem boa. nem menina. vou me fazendo de mansa e não sou mansa. ando mansa. não ando.
 
talvez seja só o tempo de afiar os dentes.

22 de junho de 2004

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começo a acreditar que a vida é isso que está aí.

8 de junho de 2004

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"foi tudo muito súbito
tudo muito susto
tudo assim como a resposta
fica quando chega a pergunta

esse isso meio assunto
que é quando a gente está longe
e continua junto"


(Paulo Leminski, em O Ex-Estranho)
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"Dói de todos os lados, os de fora, os de dentro, de baixo e de cima, nenhuma saída, e você meio cego, meio tonto, só sabe que tem que continuar, meio sem esperança, as ilusões despedaçadas, o coração taquicárdico, língua seca, e continuando. Continuando. Resistimos, aos trancos, já nem sei se foi escolha ou solavanco. Difícil arrancar uma certa lucidez disso tudo. Mas sinto que o coração se depura (é tão antigo falar em coração...) um pouco mais, em cada porrada. Meu olho compreende cada vez mais. Pode ser útil, mas gosto assim, aqui, no meio de todos os sacos de lixo que a greve dps lixeiros deixou amontoada pela cidade (as escadarias do Teatro Municipal estão cheias, o que acho muito expressivo). E resisto. Gosto de mim assim, e mesmo que não houvesse mais, só por isso. Por resistir. Quando o mais coerente seria estar talvez numa clínica psiquiátrica."

(Caio Fernando Abreu, em carta a Suzana Saldanha)
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"Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida e que não a entendemos."

(Albert Camus, em O Mito de Sísifo)
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acordo de um sono sem sono com a boca seca. ainda a taquicardia. ainda o desespero. ainda o silêncio. o copo d'água na mesa de cabeceira vazio. acabaram os comprimidos.
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coragem. tomar alguns instantes para me distrair da minha dor mas minha dor não se distrai de mim. insônia. taquicardia às quatro da manhã. que remédio. tomar um copo d'água, um comprimido, e me revirar na cama sentindo o coração pressionar os ouvidos. lá fora, o mundo dorme. e cala.

7 de junho de 2004

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estou cansada. não sei se ainda sei carregar esse corpo caminho adiante. não sei se me restam forças. não sei se esse corpo vale as forças que acredito não me restarem. o que sou eu senão esse corpo? sou esse corpo. é tudo isso que sou, é só isso que sou. e isso não parece valer as forças que não me restam. que não tenho.

todo mundo repete caetano, cada um sabe a dor, a delícia também, mas a dor a dor a dor de ser o que é. a sensação é de que ninguém sabe. o lugar tão absolutamente comum de que minha dor é mais forte que a de todos os outros. talvez não seja. mas eu sinto mais, será que isso conta? eu sinto mais. todo mundo me diz que eu sinto mais. além da conta. além de mim. eu nunca vi ninguém sentir tudo como eu sinto, nunca vi ninguém ficar devastado por tudo que a vida tem de mais mínimo como eu fico. e todo mundo me diz que eu não aguento isso, que eu não fui feita pra isso, que eu sou frágil frágil frágil. será que é tão absurdo assim, tão egocêntrico assim, que eu concorde? que eu concordo?

todo mundo diz que cada um tem sua dor, que não se pode nunca saber qual é a dor do outro, que não se pode nunca saber se a dor do outro é menor, se é maior, do que a sua. não? a vida sempre pareceu me pesar mais que a todos os outros. nunca encontrei nos olhos de ninguém essa minha angústia, assim tão grande, assim tão exata, assim tão gratuita. claro, já vi tragédias, quem não? mas não é isso o pior, que eu não tenho tragédias a justificar minha angústia? que a minha angústia não precisa, nunca precisou, de tragédias. que a tragédia já é minha sem tragédias outras. que minha tragédia eu já tenho de nascença, que ela é isso que eu carrego no peito. que é ela o me faz sentir quando eu não aguento mais não quero mais não posso mais sentir.

não consigo acreditar que a dor do outro seja maior do que isso e não seja palpável, não seja sólida, não seja óbvia. se a dor de alguém fosse maior do que isso, transbordaria, seria óbvia, eu enxergaria. porque eu transbordo disso. porque eu sou óbvia. porque eu estou transbordando disso e isso me afoga. me ultrapassa.

não aguento mais carregar esse corpo caminho adiante e não me restam forças e só me resta esse corpo esse peito que sente além de mim e que eu não consigo fazer parar de sentir. o que sinto é que não posso mais sentir.

não aguento mais ser eu. ha algum tempo. há todo tempo do mundo. tenho que deixar de ser eu. ou que deixar de ser.

espero que isso passe logo. eu sei que vai passar. mas tem que ser logo. logo. ou passo eu.

p.s. eu sei, soa exagerado, fora de qualquer proporção. mas vocês estão aí fora. então fodam-se. eu posso tentar dar proporção a isso. vocês não. é o que todo mundo diz, não é? vocês não podem me dizer como sentir ou deixar de sentir. então não tentem. porque eu quero desesperadamente ajuda, mas já é hora de aceitar que ninguém vai me salvar de mim. não tentem.
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estava voltando pra casa. ainda longe de casa. nunca perto de casa. nunca. ainda. engarrafamento. encostei a testa na janela. busquei na rua alguma cena bonita, alguma ínfima porção de lirismo, algo que me salvasse mesmo que apenas por alguns instantes de tudo que se passava, que se passa sempre, por dentro. avistei, em outro ônibus, vermelho, uma placa. dizia desembarque. soou como metáfora. como convite.

31 de maio de 2004

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a sensação é de que tudo dá certo o tempo todo. de que tudo dá errado o tempo todo. de que tudo é tão fácil o tempo todo. de que nada nunca foi tão difícil. de amar desesperadamente odiar desesperadamente o tempo todo o tempo todo o tempo todo. é pra ser assim? sinto ganas de quebrar grilhões enquanto me agarro desesperadamente às suas mãos. e resisto à tentação de tirar você da minha vida enquanto resisto à tentação de tornar você o centro da minha vida enquanto resisto à tentação de acabar de vez com a minha vida. porque a sensação é de que tudo angustia, quando é bom angustia, quando é ruim angustia. estar com alguém angustia, estar sozinha angustia. a sensação é de que tudo tem que ser resistir, resistir a mim, resistir a você. a tudo. quando nada flui, esse meu tentar desesperadamente fazer fluir é o mesmo que impedir de fluir, enquanto fazer nada para fazer fluir é permitir que persista a ausência de fluir. então o que? e você me pede, deixe as coisas fluirem. como, se não estão fluindo? se não fluem? o que você me pede? que eu faça com que elas fluam? que não? é tudo tão certo e tão errado e tão certo o tempo todo. fico resistindo a tudo e nada flui quando resisto e nada fluirá quando eu deixar de resistir. eu fico imaginando exatamente o que é isso que você me pede. se não é exatamente isso o que você me pede.
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mesmo com todo esse ioga, ando uma pilha de nervos. tenho pelo menos cem páginas de monografia por escrever, e em momentos como esse, apesar de ter a idéia toda bonitinha na minha cabeça, não consigo colocar uma linha no papel. e rôo unhas. e ataco barras de chocolate. e fico obcecada com os aspectos mais insignificantes da minha vida diária. e rôo unhas.

céus. haja ioga.

17 de maio de 2004

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conhecem a sensação de chegar perto demais de um quadro de maneira a tornar impossível efetivamente enxergá-lo? a analogia se aplica na relação eu - tema da minha monografia.

uma considerável ignorância a respeito de um tema é sempre necessária para que se possa falar sobre ele. os jornalistas da revista veja que o digam.

aliás, aproveitando o ensejo, é isso, mais uma virose (talvez dengue de novo) o que tem me afastado daqui. estou até o couro cabeludo com poder normativo de agências reguladoras, princípio da separação dos poderes, estado democrático de direito, princípio da legalidade, consensualidade na administração pública, teoria de ordenamentos setoriais, delegações legislativas, poder regulamentar. sem sobrar muito espaço pra literatura e devaneios. também tem que dengue me deixa anti-social.

mas eu sempre volto.

30 de abril de 2004

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"Basta de poemas para depois...
Ó Vida, e se nós dois
Vivêssemos juntos?"


(Mário Quintana, escritor brasileiro)

28 de abril de 2004

28 DE ABRIL

estivemos juntos antes de ontem. não fizemos muito, chegamos em casa, ele abriu as janelas, insistiu que eu comesse alguma coisa. não comi. nos deitamos. ficamos deitados na cama algum tempo antes de dormir. não lembro se falamos muito, ou pouco, ou nada. mas lembro temer que as mãos dele fossem brutas demais para me tocar sem me ferir, eu estava tomada por uma fragilidade ímpar, anjos e demônios e bruxos e nervos e feridas e cicatrizes e memória, céus, tanta memória à flor da pele, tanto tudo à flor da pele. tudo exposto. toda exposta. mas interagimos. interagimos. vagarosa. cuidadosa. delicadamente. em câmara lenta. rimos um pouco. talvez eu tenha chorado um pouco. falamos muito. ou pouco. ou nada. apenas nos deitamos. e permiti que ele me tocasse, no auge na fronteira no limite, no exato limite de toda minha imensa fragilidade. naquele ponto em que um passo em falso pode ser a diferença entre o orgasmo, o homicídio. depois caímos no sono. quase sem perceber.

tem sido assim desde que começamos. em câmara lenta. vagarosa cuidadosa delicadamente. rindo um pouco. chorando um pouco. testando limites, todos os limites, os meus, os dele. os meus. meus limites, todos eles. toda a minha fragilidade. e (pasmem) por vezes venho me descobrindo forte perto dele.

e sinto sinto sinto em tudo. em mim. em mim. em mim. sinto: é como deve ser. me deixo tocar.

27 de abril de 2004

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percebam que no post abaixo eu tomei o que escrevo como literatura. aham. espero que tenha sido um lapso.

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mas não deixei de sentir nesse meio tempo. ainda tenho no peito essas catástrofes. é só que as catástrofes que tenho no peito não saíram do peito nesse meio tempo. mas catástrofes há, catástrofes haverá sempre, o inferno é este, que catástrofes não deixam de haver.

caio f. criticou em carta o suicídio de ana c., um absurdo, logo ela que tinha nas mãos a literatura, esse grande instrumento para lidar com o caos com o medo com a dor. e vocês sabem, sou fã-mor de caio f., mas, na boa, e literatura lá é instrumento pra lidar com alguma coisa? não dói menos porque escrevo. só registro o que dói quando escrevo. não deixa de existir a dor. não diminui a dor. não acalenta. não consola. nunca consolou. digo o que digo porque não consigo deixar de dizer. não diria, fosse esta uma escolha.

acho que seria ana c. se ela ainda respirasse e andasse na talvez vã tentativa de evitar o suicídio. é isso pra mim, uma imensa tentativa de evitar o suicídio, de andar, continuar andando. o que escrevo não me dá as forças de que preciso para andar. o que escrevo são tão somente as pegadas que deixo enquanto ando.
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talvez seja a sensação do espreitar de olhos. talvez seja que não me sinto mais segura aqui. porque sei que ando medindo o que tenho a dizer antes de dizer, e enquanto meço o que tenho a dizer me foge e vira não dito. vira aquele pensar o fluxo que atravanca o fluxo. o pensar que não é fluxo. que vira rolha. a consciência do processo que se transmuta em obstáculo ao processo. se o processo está medularizado, não precisa chegar nos neurônios, não pode chegar nos neurônios. é automático, tem que ser automático. não é não sendo automático. não é. ou é?

ou talvez não. talvez seja a percepção de que o terreno é minado, cada palavra que deixo cair aqui pode detonar bombar arrancar pernas braços vidas almas. minhas, dos outros. minhas. não deixo palavras caírem. há olhos à espreita. há quem leia. há quem ouça. então, isso, premissa maior, há quem ouça. premissa menor, talvez eu não queira ser ouvida. conclusão, não digo. não sou ouvida. não digo. seria isso?

náusea seca que se revolve.

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o tempo todo é isso, esse algo a ser dito, nunca dito, no estômago, na garganta, na ponta da língua: e volta. tento colocar pra fora, enfio o dedo na garganta. não sai. não vira verbo. como se abrisse os olhos e visse e o visto sumisse antes que sua imagem se formasse. como se ficasse o contorno, a sombra, o vulto. o fantasma, juro que vi, tenho certeza que vi. eu juro. está aqui, acho. fermentando. no estômago.

estou tentando voltar, porque não quero ficar com essa náusea seca a vida toda. mesmo. mas o tempo todo que quero dizer me escapa pelas frestas entre os dedos enquanto tento detê-lo.



"Tu te abres como uma flor…
E
depois
o nosso olhar é límpido como as águas de um regato...
E distanciadamente falamos do mundo com todos os seus inclusives:
conflagrações, boatos, ataques, surpresas, compromissos...
E todas essas coisas atrozes são poemas a nossos ouvidos."


(Mário Quintana, escritor brasileiro)

6 de abril de 2004

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"I have found where I fit. I love him, and yet I am not blind to the elements in us which clash and ou of which, later, will spring our divorce. I can only feel the now. The now is so rich and tremendous. As Henry says, 'Everything is good, good.' "

(Anaïs Nin, em Henry and June)
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"I asked Eduardo, 'Is the desire for orgies one of those experiences one must live through? And once lived, can one pass on, without return of the same desires?'

'No,' he said. 'The life of freed instincts is composed of layers. The first layer leads to the second, the second to the third and so on. It leads ultimately to abnormal pleasures.' How Hugo and I could preserv our love in this freeing of instincts he did not know. Physical experiences, lacking the joys of love, depend on twists and perversion for pleasure. Abnormal pleasures kill the taste for normal ones.

All this, Hugo and I knew. Last night when we talked he swore that he desired no one but me. I am in love with him, too, and so we let the issue lie in the background. Yet the menace of those wayward instincts is there, inside of our very love."


(Anaïs Nin, em Henry and June)

2 de abril de 2004

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"My journal breaks down, because it was an intimacy with myself. Now it is interrupted constantly by Henry's voice, his hand on my knee."

(Anaïs Nin, em Henry and June)
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percebo que gosto de alguém quando não ligo a metralhadora giratória. quando até poderia ligar. mas não ligo.

27 de março de 2004

FITTER HAPPIER

nesse meio tempo? tive dengue fiquei sem computador extrai dois cisos voltei a malhar parei com os refrigerantes reduzi drasticamente a cafeína. emagreci. venho dormindo melhor lendo muito escrevendo pouco tomando antibióticos e suplementos alimentares e homeopatia praticando ioga vendo amigos menos do que gostaria. ando mais pra cima que pra baixo, e isso deve ser bom, tem que ser bom. mas ando mais pra dentro que pra fora, e a gente deve respeitar o próprio fluxo, tem que respeitar o próprio fluxo. então ando pra dentro lendo muito escrevendo pouco em abstinência de café. fitter, sometimes happier, sometimes not. e, apesar do radiohead do título, a fase é de morphine. talvez seja o universo fazendo trocadilhos.

4 de março de 2004

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está feito o diagnóstico: entrei a pleno vapor em mais um dos momentos de profunda introspecção que sempre seguem meus momentos de explosão. a sensação de que há sempre algo impronunciado e impronunciável. o essencial indissociável de uma incomunicabilidade impenetrável. a ausência de qualquer impulso para estender a mão na direção do outro, de qualquer outro. a incapacidade para ostentar reação diversa de escapar, escapar, escapar. para fazer algo que não seja tecer o casulo ao meu redor e me esconder nele. talvez seja só que a fase é problemática, talvez seja só que estou meio adoentada, talvez seja só que as tarefas não cessam. mas os sintomas são esses, estão todos aí. construo o casulo, escapo, me escondo. me faço casulo sem ter idéia de quando e se sairei borboleta dele.
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"não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos (...) anos. Devo estar acostumado.

Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês - que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio - que é tão ou mais delicado.

Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como 'eu gosto de você'. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida - como quem olha de uma janela - mas não consegue vivê-la.

Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco (...); amor encabulado (...). Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto."


(Caio Fernando Abreu, em carta a seus pais. essa carta me lembrou uma pessoa. também me lembrou de mim mesma.)
A FACE DE DEUS É DE VESPAS

"Queremos ser felizes.
Felizes como os flagelados da cheia,
que perderam tudo
e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:
'Graças a Deus, podia ser pior!'
Ó Deus, podemos gemer sem culpa?
Desde toda a vida a tristeza me acena,
o pecado contra o Vosso Espírito
que é espírito de alegria e coragem.
Acho bela a vida e choro
porque a vida é triste,
incruenta paixão servida de seringas,
comprimidos minúsculos e dietas.
Eu não sei quem sou.
Sem me sentir banida experimento degredo.
Mas não recuso os marimbondos armando suas caixas
porque são alegres como posso ser,
são dádivas,
mistérios cuja resposta agora é só uma luz,
a pacífica luz das coisas instintivas."


(Adélia Prado, escritora brasileira)

27 de fevereiro de 2004

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"por mais que eu ande
nada em mim imagina
o que é que menina
tão pequena está fazendo
numa cidade tão grande"

(Paulo Leminski, poeta brasileiro)

21 de fevereiro de 2004

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o mais difícil é isso, reconhecer o momento exato de obedecer aos chamados dos espaços que você não ocupa. não quero sentí-lo próximo. sinto-o próximo. ele bafeja minha nuca. sussurra meu nome. me convoca. me tenta. seguro. arrogante. ele sabe, como sabe, que o desejo. anseio por ele, porque ocupar os seus espaços tem sido doloroso além da conta. além da sua conta. além da nossa. além da minha. o momento dos espaços que você não ocupa seria a paz. a anestesia. não, não seria a glória. mas por ora não me tenta a glória. mas a paz... meu desejo de paz, de ausência de dor, me estuda. espreita. prepara o bote.
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"Bem que eu queria dormir,
mas a culpa chamou-me a noite inteira.
Eu preferia fugir,
mas a morte arranhava a minha porta.

Devia esquecer o amor,
mas esse não desiste de mim:
me agarra, me devora e me vomita
no alto da sacada.

(Cada vez que acordo,
perdi um novo pedaço:
ouço cacos rolando
o tempo todo na escada.)"


(Lya Luft, escritora brasileira)
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e se for melhor eu partir enquanto você está adormecido? me deixar disfarçar pelo silêncio das horas, ir embora na ponta dos pés. na calada da noite. sem que você perceba a sua perda. sem que você me faça perceber a minha. permaneço deitada ao seu lado de olhos abertos. eu mesma longe de adormecer, evito olhar para você adormecido ao meu lado. sinto o impulso de acordá-lo, mas o que eu faria com você acordado? talvez eu goste mais de você adormecido. talvez eu tenha medo do que será quando enfim você estiver acordado. talvez eu não tenha escolha entre ficar e partir quando você estiver acordado. talvez então seja a perda inevitável, mas e se for? não seria melhor que eu escolhesse partir enquanto a escolha ainda é minha?

por ora você dorme, por ora eu permaneço inerte. insone. você dorme. eu ouço os chamados da noite. dos espaços que você não ocupa.

18 de fevereiro de 2004

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ando meio bamba, ora bem, ora péssima. estou no ora péssima agora, aliás. tento resistir bravamente à tentação de transformar isso aqui num poço de lamúrias. mais do que já é, anyway. aquela ladainha de sempre, só dizer algo quando tiver algo a dizer, etc etc etc. meio difícil, porque fora reclamar egoisticamente da vida, não me tem ocorrido muita coisa. não tenho conseguido ler, nem escrever, nem me concentrar minimamente em tarefas isoladamente irrelevantes, mas necessárias para que o dia a dia siga o seu curso.

tenho sentido falta de dizer, no entanto. algo anda permanentemente entalado. entalado e, por ora, aparentemente intraduzível. volto quando o que quer que esteja entalado e intraduzido em mim seja devidamente traduzido e desentalado. volto quando conseguir voltar. as coisas estão meio trevas, but i don't have to make a spectacle out of it. at least i'm trying not to.

17 de fevereiro de 2004

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"what do you think i'd see
if i could walk away from me"

13 de fevereiro de 2004

S.O.S.

"não houve sim que eu dissesse
que não fosse o começo
de um esse o esse"

(Paulo Leminski, escritor brasileiro. acabei de adquirir o ex-estranho, e ele já galgou um merecido posto entre meus livros prediletos. leminski é foda.)

12 de fevereiro de 2004

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quase temo crer que essas águas que se prenunciam serão calmas, mas e se não forem? espero que caiam as últimas gotas de tempestade para deixar escapar do peito o suspiro de alívio que sempre prendo enquanto gotas de tempestade caem. espero enquanto caem. espero que caiam. que sejam as últimas. que sejam calmas essas águas que se prenunciam. por enquanto espero. espero enquanto espero.

9 de fevereiro de 2004

MAKE IT ONE FOR MY BABY, AND ONE MORE FOR THE ROAD

me formei semana passada. ou quase. teve colação, beca, canudo, músicas breguérrimas, festa, bebida ruim e meninas de cabelos armadíssimos. toda a pompa e circunstância que eu amo odiar. mas estou devendo a monografia e uns acertos finais. então, me formei, mas não, não me formei. e antes que me perguntem, atrasei a coisa por opção. vamos tentar fazer as coisas com calma, em respiração de ioga, pra variar. com tempo, muito tempo.

mais importante, aliás. fiquei emocionada com as presenças ilustres e com a paciencia estóica que demonstraram os presentes à colação, que foi longa, muito, muito longa. e pelo carinho, obrigada pelo carinho que todos demonstraram essas últimos dias.

5 de fevereiro de 2004

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"Tua alma-vampira
gruda na minha os lábios pálidos
e suga:
minha vida sai de mim pelas feridas
dos teus dentes,
minha alma me escapa, eu de mim.
(Vale a pena este amor?)

Quem me acha serena nada sabe:
o sangue que goteja longamente,
tuas vindas à noite, pela sombra,
o punhal de prata em minhas mãos.

(Nem tu saberás, provavelmente.)"


(Lya Luft, escritora brasileira)
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e deve ser que tenho a mesma postura diante da vida e dos filmes de ação de hollywood: distraída pelas cenas de luta, acabo perdendo a moral da estória.

4 de fevereiro de 2004

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"Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros."

(Caio Fernando Abreu, escritor brasileiro, em carta a seus pais.)

3 de fevereiro de 2004

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ando lendo muito. escrevendo pouco ou nada que preste. por mim tudo bem. um dia a erupção vem.
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" (...) Às vezes o que parece um descaminho na verdade é um caminho inaparente que conduz a outro caminho melhor. Às vezes não."

(Caio Fernando Abreu, escritor brasileiro, em carta a Jacqueline Cantore)
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"Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Mordo devagar
o fruto dessa inquietação.

(Alguém me inventa e desinventa
como quer:
talvez seja essa a minha condição.)

Bastaria um momento de silêncio
para eu ser feliz:
mas do fundo do palco
uma voz me chama.
Serás tu, amor,
ou é a Morte, apenas, que reclama?"


(Lya Luft, escritora brasileira)

2 de fevereiro de 2004

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preciso diminuir a amplitude.
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"São (...) perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. (...) Ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): 'Caminante, no hay caminos. Pero el camino se hace al andar'.

Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz 'Deus é minha última esperança'. (...) Não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Rudo é maya/ilusão. Ou samsara/círculo-vicioso. (...)

Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesuzinho? (...) Vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é
in, não é off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando pra Nova York, nem.

Você quer escrever. Certo, mas você
quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas (...). Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. (...) Você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contráriop você não vai prestar, eu tenho certeza, você poderia enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, 'apaga o cigarro no paito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo'. Isso é escrever. Tira o sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a 'função social', nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima (...). A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sagrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de 'meio doida'. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão.

(...) E ler, ler é o alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente, Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma-a. Pode até sair uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho - e posso estar enganada - que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? e não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

(...) Vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro das gente, sem culpa, é. Let me take you: I'm going to strawberry fields."


(Caio Fernando Abreu, escritor brasileiro, em carta a José Márcio Penido.)
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sou uma criança, olhos fechados, de noite, no escuro, porta do quarto encostada, tremendo debaixo da cama, com medo de dragões. que ouviu milhares de vezes, dragões, não existem, isso é bobagem, coisas da sua cabeça, imaginação fértil. olhos fechados, não há o que temer, dragões não existem, dragões não existem, dragões não existem. e sinto o bafo quente de um dragão na nuca.
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dói agora. dói sempre. não vislumbro no horizonte nenhuma indicação de que vá melhorar. mas assim é a vida, não é? é. e não, não me venham com os lugares comuns usuais de que, vai passar, linhas tortas divinas, superação, nirvana, essas porras. agora é isso, nenhuma indicação de que vá melhorar. a vida é isso. esconder as chagas na carne, vestir armaduras, reunir forças, enfrentar, enfrentar, enfrentar. não ter mais forças pra enfrentar. e pornto, e foi. isso, é isso, será isso, até não ser. até não enfrentar reunir forças vestir armaduras cobrir chagas. até então. a vida é isso. sem nirvana. isso.

30 de janeiro de 2004

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e vocês vive falando de estafas, de como já teve duas, e se tiver a terceira não vai ter a quarta. é isso, acho: me estafei de sofrer. é que já doeu muito, sabe? já doeu muito além do que essa minha estruturazinha frágil suporta. já doeu para muito além de mim. é que eu sinto muito, sinto tudo, sinto tudo muito além de mim. é que eu sinto muito, são muitas terminações nervosas, sabe? e eu sinto muito. por mim, por nós. por mim principalmente. mas então: são as estafas. me estafei de sofrer. uma duas tantas vezes. se tiver a próxima, talvez não saiba sobreviver pra ter alguma outra. tendo sofrido tantas, talvez eu não queira sobreviver de maneira nenhuma. tendo sofrido tantas, você me entenderia. mesmo com menos terminações nervosas.
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"O bom dessas grandes civilizações é que um dia elas se acabam e tudo começa novamente."

(Mário Quintana, escritor brasileiro. fiquei um tempão hoje tentando lembrar dessa frase, pra definir a alguém mais uma da minhas infindáveis paranóias. às vezes me convenço que só leio para encontrar eco. há de haver eco em algum lugar.)

27 de janeiro de 2004

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saca worst case scenario? pois então.

26 de janeiro de 2004

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eu tardo, tardo, e no fim, se ainda houver tempo, quem sabe consiga não falhar. difícil haver tempo.
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"Buscas a perfeição? Não sejas vulgar. A autenticidade é muito mais difícil."

(Mário Quintana, escritor brasileiro)

20 de janeiro de 2004

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diria que é falta de tempo para postar, mas isso seria uma mentira deslavada. a verdade é que de certa forma falta tempo, sim, do mesmo jeito que sempre falta tempo pra fazer tudo que se quer fazer, pra ler todos os livros que queremos ler,ouvir todas as músicas que queremos ouvir, estar com todas as pessoas com quem queremos estar, dizer todas as coisas que queremos dizer. sempre falta tempo pra tudo, é fato. mas o que determinou a ausência desse espaço foi não a falta de tempo para dizer, mas a falta de impulso para dizer. um silêncio interno. momentâneo, claro, tudo na vida é momentâneo. mas é isso: aqui dentro, estamos vivendo um momento de silêncio. talvez seja só o vulcão preparando a erupção. costuma ser.

enfim. agora são reticências.

15 de janeiro de 2004

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"As épocas de transição nunca foram idades de ouro, séculos de ouro. São apenas épocas de arame. Que a gente tem de atravessar como o bamboleante fio estendido de um lado a outro do circo. E isto, note-se bem, sem rede de segurança.

(Lá embaixo, na arena, estão rugindo as feras.)"


(Mário Quintana, escritor brasileiro. Caderno H, ao que parece, é o meu mais novo livro de cabeceira.)

14 de janeiro de 2004

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"A bomba abriu um belo buraco no teto, por onde o céu azul sorri para os sobreviventes."

(Mário Quintana, escritor brasileiro)

11 de janeiro de 2004

I'M LIKE AN ADDICT COMING AT YOU FOR A LITTLE MORE

é nóis na fita e os prayboy no dvd, foi a frase da noite de ontem.

notas soltas:
1. descobri que estão se referindo a mim como *sigh* "a-aline-que-ninguém-conhece". estou ocupando o posto de amiga imaginária das minhas colegas fotologgers. povo famoso, importante. somos mais low profile por aqui.
2. sim, sim, foi bunker. não, eu não mudo, gosto de um lugar e viro mobília. anyway, meu menino tocou. o som farofa, evidentemente, aprendiz do amândio. mas o povo adorou, e, apesar do nome *ui* artístico escolhido por ele ser meio ridículo, fez sucesso, fez sucesso. e quando ele quis esvaziar a pista, me pediu uma força na seleção musical. a seqüência temptation waits-fast as you can-paranoid android expulsou o povo do franguinho no espeto e deixou as usuais cinco pessoas que resistem quando toca algo de que eu REALMENTE gosto. e olha que a minha seleção foi meio óbvia.
3. saudade, muita saudade, de mais gente do que posso dizer.
3. andava sentindo falta dessa anestesia domingueira, que é o inevitável pós de só sair varrida da pista de dança no sábado anterior. o estar arrasada, moída, sem sentir meus pés. muito, muito bom. preciso voltar a fazer isso, ando velha, velha.
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"Ter um colo para os desamados,
os lúcidos, terríveis loucos,
que varam as noites rasgando a alma
e sentindo na boca o gosto do próprio sangue:
mas não posso.

Um me escreve cartas lacinantes,
outro quer se matar, outro ainda
ficou cego de amor e já não pode viver.

Fico diante da lareira toda a noite
olhando o fogo que não devora o mundo.
O amor, todo o amor, no fundo
é cinza."


(Lya Luft, escritora brasileira)

9 de janeiro de 2004

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verão de merda esse, em que não pára de chover.
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"Essas distâncias astronômicas não são tão grandes assim: basta estenderes o braço e tocar no ombro do teu vizinho."

(Mário Quintana, escritor brasileiro)

8 de janeiro de 2004

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"Ouço, num primitivo espanto, os gritos mais insólitos. Não sei o nome de nenhum desses pássaros, de nenhuma dessas árvores. Olho, agora, esta flor: apenas sei que é amarela. Meu pensamento, ou seja lá o que for, é simplesmente composto de adjetivos, como nos primeiros dias da criação."

(Mário Quintana, escritor brasileiro)
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na avaliação da vida, o racioncínio invariavelmente se guia por resultados. se tudo ficou bem resolvido, então nossas escolhas foram boas. se não, não foram. simplista o premissa, eu sei. mas é fato. vejam só: quando olhamos pra trás, só questionamos as escolhas de que nos arrependemos. se não existe arrependimento, fica a sensação de que, dentre toda a infinidade de caminhos à nossa disposição, o escolhido era o único possível. a ilusão do único caminho possível.

olhamos para o que já se desenrolou no percurso, e o avaliamos de acordo com o ponto em que estamos deste percurso. o próprio registro na memória está sempre em mutação, como se nossa história pessoal estivesse sendo reescrita o tempo todo, os matizes de cor mudando de acordo com o grau mais atual de luminosidade.

a nossa história se transfigurando feito estudo impressionista. tudo mergulhado em luz. na sua ausência. pouco importa o que está mergulhado, não é isso o que nos hipnotiza. nos hipnotiza o show de luzes. de cores. de sombras.

7 de janeiro de 2004

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"Eu pedia licença a Deus
encostava a testa no vão da porta
e espiava:
lá estavam os mortos, aquietados,
cada um em sua gaveta, o rosto eterno
que eu não via.
(Os mortos, sim, me vigiavam.)

Guardados naquele silêncio,
dobras de vidro e metal,
não dormiam:
à noite, eu sabia, eles voltavam
às casas onde tinham amado,
esfregavam os rostos nos espelhos até sangrar,
e seu lamento agufo gotejava
no sono dos vivos, como chuva.

(Eu me retirava devagar pelo caminho de pedra,
os olhos dos mortos grudados nas minhas costas.)"


(Lya Luft, escritora brasileira)

6 de janeiro de 2004

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deus abençoe a vida por abrir à força as trilhas que não tenho coragem de abrir sozinha. por me arrancar dos círculos em que caminho, por me atirar em tudo que não ouso, nunca ouso, só ouso à força, sempre à força, à custa de sangue, sempre à custa de muito sangue. mas deus a abençoe. se ainda não me perdi de mim, foi graças a ela, só a ela. a mais ninguém. é só ela que me leva de volta a mim quando não percebo que estou me afastando de mim, quando não percebo que estou prestes a me perder de mim, então ela me pega pelos cabelos, me arrasta esperneando, me sangra, me mostra, veja só, você quase se perdeu de você. quase. e me salva da tragédia de me perder. me salva. se ainda me tenho ao alcance, é graças a ela, ela me salvou. me salva. deus a abençoe por isso.
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quase me perdi definitivamente de mim. tantas e tantas vezes. e de vez em quando isso volta. voltou hoje. arrepio na espinha, cheguei tão perto da beira do abismo. tantas e tantas vezes. tão perto daquele instante irreversível, daquele instante que tira tudo do nosso controle, daquele instante que faz desaparecerem pra sempre pra todo sempre todos os outros caminhos antes possíveis. que torna todos os caminhos agora impossíveis. tão vertiginosamente perto. tão perto de me perder definitivamente de mim, tantas, tantas, tantas vezes. arrepio na espinha. tão perto.

5 de janeiro de 2004

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e, vejam vocês, o universo ainda detém a capacidade de me surpreender.
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o ano começou.
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"all my armour falling down in a pile at my feet
and my winter giving way to warm as i'm singing him to sleep"
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sentir saudade de mim, é comos e me procurasse o tempo todo. pelas ruas, pelas esquinas, há sempre alguém caminhando à frente, ritmo mais largo que o meu, e já elocubro, mas será que sou eu aquela ali na frente, eu vou tão ligeira que vou sempre me deixando pra trás no caminho? aperto o passo, respiração curta, estendo a mão - e nesse momento algum algo acontece, uma música diferente, um carro freiando na rua, um tropeço, me distraio - quando vejo, já virei a esquina, já estou além do meu próprio alcance. me procuro de novo. sinto saudade.
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andava com saudade de mim. já tinha esquecido de como era isso.