31 de janeiro de 2008

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meu avô materno era ourives. faleceu no final do ano passado, deixou pra trás um filho morto, três filhos e esposa vivos, uma casa velha, algumas jóias de família. as que restaram, não se foram junto com anéis e alguns dedos depois de crises de petróleo, planos cruzados, cruzeiros e collores. em minhas mãos, na caixinha de jóias, no coração, restaram algumas. são poucas, singelas, de valor ínfimo. uns anéis, uns pingentes. outras, valiosíssimas. do tipo, o ensino universitário da minha mãe, que abriu caminho para o meu, para o do meu irmão. que abriu caminho para as coisas que tenho hoje, que sou hoje. que me tornei. do tipo (e essa jóia, exatamente, nem foi deixada pelo meu avô materno, mas me permitam a licença poética), o horizonte. esses valores. essa inteireza. essa verdade. essa sinceridade brutal, que me deixa um olhar ligeiramente, completamente, ensandecido e ensangüentado. sangue meu, sangue dos outros. sangue de todos.
daí que me dou conta. até pouco, muito pouco, pouquíssimo, tempo atrás, eu nunca tinha encontrado o mal. O MAL. digamos que eu vivia no olimpo, apesar do olimpo nunca parecer muito olímpico quando o olimpo é tudo o que se conhece. mas eu nunca tinha visto o hades. não, não é isso. o mal não é o hades, o hades é só um lugar pra guardar os mortos. o inferno, o inferno é só mais um lugar. o mal é o mal. eu, olímpica, solene desconhecida do mal, pensava, bah, não existe. exímia malabarista de discursos e de todos os relativismos possíveis. como se o mal fosse só uma invenção de alguém que quisesse dizer o que é um bem que também não existe, que quisesse me empurrar um bem que é mal goela abaixo feito xarope.
e não é. não é.
e é engraçado, parece ser o caminho inverso ao de todo mundo. ir ficando absoluta. ir vendo as coisas caírem, observando o que vai, o que fica. o que tem que ficar. o que não vai embora de jeito nenhum e passa a ser sua bússola. seu norte. as jóias de família que você não vende, não perde, não põe no prego. mas o mal.
o mal é aquilo que te embaralha, que te amputa horizontes, que usurpa nortes. que rouba as jóias de família que não se vendem. os alguns anéis que meu avô materno deixou. a educação universitária dos meus parentes. os valores. a inteireza. a verdade.
desci do olimpo justamente onde a humanidade provavelmente o encontra (o olimpo dos cegos deve ser lá onde ninguém enxerga nem vê). e o mal, esse ainda relativo desconhecido, ainda encoberto de infinitas meia luzes e muitas peles de cordeiro - ele se esconde e se esconde -, o mal quer me tomar a pessoa que me tornei. quer me arrancar essa sinceridade. quer me amansar e suturar o olhar, e me empurrar relativismos goela abaixo. feito xarope.
o mal quer, como quer, me amputar o horizonte.
o mal quer, como quer, que eu pense que ele não existe.
e eu.
eu não vou deixar.