11 de junho de 2006

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a incomunicabilidade é questão de tempo.
pontes se fazem e desfazem, a velocidade disso, não percebemos. só naquele instante em que vamos atravessá-la - de repente ela não está mais lá. caímos no vazio no nada em nós. não no outro.
a tentativa, reconstruir pontes, escapar à armadilha da incomunicabilidade inexorável.
o medo, a própria noção de comunicabilidade ser castelo de areia, a gente inventar pra brincar de gato e rato com o imponderável.

o imponderável é questão de tempo.
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"so I ran faster
but it caught me here
yes, my loyalties turned
like my ankle in the seventh grade
running after billy
running after the rain

these precious things
let them bleed
let them wash away

these precious things
let them break their hold over me"


(tori amos)

6 de março de 2006

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se a incomunicabilidade é questão de tempo

6 de fevereiro de 2006

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me fazer de virtuosa é fácil, tão fácil, em terra de cego. mas. de soslaio, o desejo, esse demoniozinho no ombro que volta e meia me sussurra obsessões ridículas no pé do ouvido. me distrai por um segundo, nada podendo fazer a respeito, indago acerca da causalidade desse objeto: por que quero porque quero, um bibelôzinho colorido e inúitil. indago, como quem coça uma alergia ligeiramente incômoda, apenas ligeiramente incômoda apenas. apenas. mas. minto: incomoda algo mais. nem sei se quero tê-lo, bibelozinho. incômodo tão maior que o incômodo menor usual dos desejos, seria um desejo maior? me impediria o caminho da virtude que necessito ao menos emular. ao menos. manter fora de vista, seria a solução. ou destruir. destruir. o desejo de destrução aniquilação solução final holocausto um novo demoniozinho. mas. destruir. também me impediria o caminho da virtude. impediria? indago, finjo ignorar a coceira, impassível, me sussurra, não posso, de soslaio. me faço de virtuosa em terra de cego. em terra de cego ninguém enxerga. lá. muito bem. demônios. e anjos? indago. coça.

5 de fevereiro de 2006

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ando tomada de um egoísmo delicioso. por isso talvez não ande escrevendo, não me orgulho, não registro, quero me fazer de virtuosa e fazer como que ele não está aqui. não quero olhar para trás e ver essas pegadas. essas pegadas. mas essas pegadas. mas esse egoísmo.,
um sabor quase lascivo. escorre. pinga. transpira.
deslizo.
esse egoísmo sua.
suo.
sua.
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encaro nos olhos a suposta proclamada vulgaridade da escrita em primeira pessoa, e percebo advir ela de algo que definiria como limitação pessoal: sou-me intransferível. não desejo olhar para o outro, não tenho qualquer curiosidade acerca de alguma subjetividade que seja alheia à minha própria. pois só me interesso por mim mesma, e o outro só me interessa na medida em que olha para mim.

vulgaridade? suprema. tento desviar atenções, teço discursos gastos, me finjo autêntica, não me escondo atrás de personagens: mas me escondo atrás de uma linguagem que não utilizo com tanta destreza, mas em terra de cego. em terra de cego. me dispo acreditando me vestir, como o imperador do conto. as pessoas querem tanto tanto acreditar nos trajes e não há olhar inocente a apontar a verdade. a VERDADE. não me escondo atrás de personagem, sou minha própria personagem e nenhuma mais falsa que esta.

escrever em primeira pessoa é mentir que se fala de si. mentira? a suprema. suprema.

29 de dezembro de 2005

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"lily is dancing on the table
we've all been pushed too far
i guess on days like this you know who your friends are

just another dead fag to you, that's all
just another light missing on a long taxi ride

and i'm down to your last cigarette
and this "we are one" crap as you're invading
this thing you call love, she smiles way too much

but i'm glad you're on my side
sure, i'm glad you're on my side
still"


(tori amos)

(ano difícil, andando em círculos concêntricos, um menor que o outro, um menos que o outro, de alguma maneira os círculos não terminam, não terminam. não terminam nunca.
a resolução, única resolução: chega de círculos.
um ano decente pra todos.)

27 de novembro de 2005

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procuro um caminho que me procura, algo que salta aos olhos no horizonte. serei eu nos olhos do horizonte, ou os olhos do horizonte em mim? talvez seja só questão de sentar numa pedra na margem, esperar que ele me encontre. sento. espero.

mas.
...e se ele tiver a mesma idéia?

eu no horizonte em mim. no horizonte. em mim.
temos as mesmas idéias. esperamo-nos.

7 de novembro de 2005

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decomponho nosso encontro (seriam encontros? ainda não sei dizer) primeiro em formas básicas. cubos. cilindros. pirâmides. depois. quadrados. círculos. triângulos. depois. linhas. depois. pontos.
depois.
depois.

a escravização pela negação da forma é a escravização pela forma. a escravização pela forma é a escravização pela negação da forma. forma, disforma, tudo, escravização. somos escravos.
meu universo cubistificado se transmuda em camisa de força.

me afastar de você é me aproximar de você. me aproximar de você é me afastar de você. me afastar de você é me afastar de mim é me afastar de nós é me aproximar de você é me aproximar de mim é me aproximar de nós. me afastar de você é me aproximar de mim. distâncias são lentes e nenhuma distância está realmente lá enquanto tudo é permeado de toda distância do mundo. todas as formas são pontos permeados de toda distância. decomponho paisagens em pontos.

decompor nosso encontro em pontos é me afastar aproximar desfazer em coisa nenhuma. coisa nenhuma. tomo toda distância que inexiste e que permeia todas as formas desse nosso nós ainda dissolvida na forma sem forma desse nosso nós.

dissolvida em nosso nós, em nossos nós. nossos nós. nosso nosssos nós. ausência. onipresença. todanenhuma forma. camisa de força. forma. nosso nós. nossos nós. nós. decompor. desfazer os nós. desfazer o nós. desfazer todos nós.

que sobrem apenas. formas básicas. linhas. pontos.
que nada sobre.
que sobrem linhas.
que nada sobre.

somos as linhas. esses nós, esse nós. só linhas. emaranhadas, misturadas, fundidas. só linhas.
desfaçamo-nos em linhas.
desfaçamo-nos.

pairo em linhas.
pairo em pontos.
pairo em nós.
nós.

defaço-me. desfaçamo-nos.
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ipês são árvores que se despedem de flores na primavera. o mundo anda assim, ciclos sazonais invertidos. tudo invertido. tudo do avesso. paisagens cubistas. irreconhecíveis naturezas mortas vivas e homens com sem clarinetes e violões. assisto ipês se despedindo de flores, me despeço das minhas, outono no auge de primaveras. tudo invertido. eu invertida, minha face em desconstrução cubista no espelho, mulher com violão, mulher sem violão. mulher que chora. jackeline picasso se picasso a tivesse pintado uns cinqüenta anos antes. me observo cubista decomposta desconstruída decantada. desencantada. me observo cubista. me retorço me quebro me parto. parto. me despeço de flores, das minhas, flores em partida no auge da primavera. ou seria outono? despedir-me de flore. me preparar pra morrer. ou seria viver? ou seria? ou seria. morrer pra viver viver pra morrer. tudo a mesma coisa. tudo a mesmíssima coisa. tudo a mesmíssima coisa? não é isso ser cubista? desconstrução enquanto construção, decomposição enquanto composição. fundir shiva com brahma. transformar tudo em vishnu. concluir: não há permanência e tudo é a permanência da impermanência. permanência impermanência se dissolvem na paisagem do avesso. tudo que rui se constró tudo que se constrói rui ruiu está ruindo. está ruindo. enquanto falamos. enquanto falamos. enquanto falamos. tudo nasce vive morre enquanto falamos. tudo vive enquanto falamos. nós inclusive. morremos enquanto falamos, viver é morrer aos poucos. morro aos poucos. falamos. falo. vivo. morro. me decomponho. me componho. me recomponho. me decomponho. me acompanho. concomitantemente, tudo junto, tudo ao mesmo tempo. tudo enquanto falo. não há definição. não há nomes. falamos de tudo sem perceber que falamos de nada porque tudo é sui generis tudo é único e nessa unicidade tudo é dolorosamente a mesma coisa. todas as unicidades são combinações. cubos cilindros pirâmides quadrados círculos triângulos. linhas. linhas horizontais verticais diagonais perpendiculares paralelas. tudo que é paralelo se cruza. se dissolve. se funde. linhas. pontos. o mundo é cubista. me despeço de formas. me despeço de flores. haverá primaveraoutono a trazê-las de volta? me despeço. aguardo ipês florirem de novo num inverno que espero próximo. talvez então também eu.
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can you see, can you see, can you see?
the moon is so hollow
what's the use when i can see right through you?

what's the use?

14 de outubro de 2005

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a vida te dá esses pedaços infindáveis de experiência, e você cheio de cacos na mão sem saber muito bem o que fazer com eles. tudo desconexo, nada que se encaixe, nada que preste, nada que sirva para coisa alguma. nenhuma moral a ser extraída da história dos passos atrás, dops passos adiante. nada que você possa chamar de seu. o caminho debaixo dos seus pés se movendo feito esteira rolante e você tentando seguir o ritmo ofegante porque se não seguir você cai e cair é ainda pior que ofegar seguindo o ritmo.e você segue. segue tentando descobrir o que fazer com os cacos, são tantos, tantos, deveriam encaixar, deveria haver liga, não há liga, não encaixam, nada encaixa. deveria jogar fora, menos peso, mas você não os joga, ainda alimenta uma esperança meio cega, há de haver encaixe em algum lugar, você que não viu. você não joga nada fora. você não desiste de encaixar. nada encaixa. nada que você possa chamar de seu, nada. o caminho sob seus pés, também não é seu. nem é propriamente um caminho, convenhamos, é só uma esteira rolante, estatismo com impressão de movimento ou o movimento com impressão de estatismo. ou nenhum dos dois. tudo se move, nada se move. o móvel estático, o estático móvel, que resume todo o movimento planetário. tudo vindo de nada, indo pra lugar nenhum. você também. todos esses pedaços de experiência, tantos pedaços sem moral encaixe nexo. tantos pedaços, nenhum que você possa chamar de seu. você não joga fora. você se move sem se mover. sem lição. sem moral. sem encaixe. sem nexo. sem direção. sem nada. nada serve para coisa alguma. você se move.

3 de outubro de 2005

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o mundo ser um lugar previsível, tudo já ter sido visto lido dito, nada disso importa. as coisas serão o que quiserem e não há nada a fazer a respeito. me sinto cassandra, profetizando a estupidez de quem e do que existe ao meu redor, apontando, gritando esperneando. assistindo o universo dar de ombros e seguir seu rumo.
que catástrofes se prenunciem não impede que catástrofes aconteçam.
um otimista talvez dissesse, prenunciar catástrofes nos torna mais preparados para enfrentá-las.
eu de há muito já não sou mais uma otimista.

11 de setembro de 2005

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os momentos se sucedem, um a um, lenços coloridos que se puxam da cartola de um mágico que não faz mágicas, a vida como prestigitação. soaria insípido, mas dentre os lenços há aqueles que são claros, transparentes, exatos. puros. límpidos. água de nascente, insípida apenas pra quem nunca sentiu sede, pra quem nunca levou aos lábios água de poça por engano.
o encontro, foi puro. límpido. exato. não definível, senão por essa pureza, limpidez, exatidão. instantes não definíveis, exatos.
vida de prestidigitação, a única mágica presente naquilo que se oferece de plano pelo que é, nem mais nem menos, sem ilusionismo barato, sem mágica sem mágica. a mágica está nesse exato que raramente se mostra, neste exato raro e valiosíssimo. foi exato. exato.

4 de setembro de 2005

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"and i'm recording our history now on the bedroom wall
and when we leave the landlord will come and paint over it all

and i am walking out in the rain
and i am listening to the low moan of the dial tone again
and i am getting nowhere with you
and i can't let it go
and i can't get through

so now use both hands
please use both hands
oh, no don't close your eyes
i am writing graffiti on your body
i am drawing the story of how hard we tried"


(ani di franco, both hands)

2 de setembro de 2005

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ando me parecendo a única pessoa minimamente razoável do mundo.
deve haver algo de errado comigo.
.
.
.
... ou com o mundo.

24 de julho de 2005

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tenho estado absorvida na tarefa de observar minha vida enquanto ela dá voltas (uma? duas? muitas?) de cento e oitenta graus. cento e oitenta graus, em câmera lenta lenta lentíssima. lentíssima. no ritmo com que as árvores nascem. crescem. morrem.
árvores morrem.

estou absorvida nessa tarefa, nessa estranhíssima de morrer. de me observar morrendo. de me observar deixando de ser a pessoa que eu costumava ser. de me observar enquanto mato / matam / morre a pessoa que eu costumava ser. algo nascerá no lugar dela? observo absorvida. observo. absorvo. me absorvo.

observo a mim mesma enquanto morro. e estou quase terminando. de me observar. de morrer. estou quase terminando de me observar enquanto morro.

observo algo enquanto algo se fecha.
talvez algo em algum outro lugar se abra.

mas é certo. é certo que algo se fecha. observo enquanto se fecha. observo. absorvo. estou absorvida.

...
..
.
algo se fecha.

17 de junho de 2005

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os deuses me coagem ao individualismo. os deuses me obrigam a renegar o outro metafórico. me punem quando me recuso, mandam raios tempestades cataclismas. porradas. porradas em reação a um estender de mãos. porradas em reação a sorrisos. porradas em reação a nada. porradas. porradas. porradas. em paralelo, marte na um áries em ascenção no retorno solar. os deuses me coagem ao individualismo. cada vez menos me recuso. cada vez mais sou coagida. cada vez mais me rendo. cada vez mais só dou ao outro o puro e simples que decorre de um inafastável imperativo ético categórico. cada vez menos dou ao outro algo que decorra de uma espécie qualquer ou mínima de compaixão afeto generosidade. de amor. amor chega a soar risível. risível. risível.
cada vez mais sou coagida e cada vez mais o outro só existe para mim enquanto não me for moralmente possível dele declinar. fora disso: digo lamento, digo boa sorte, digo adeus.

o engraçado é isso já ser tão mais do que me seria socialmente exigível.

claro, exceções há. mas se afunilam. cada vez mais.

11 de junho de 2005

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a verdade é: me despojo, vejo ruínas, sei que ruínas são só ruínas. mas a verdade é: ainda consigo enxergar nas ruínas o suposto êxtase de ontem.
a verdade é: vejo ruínas que são só ruínas, e por ora o ontem me encobre a vista.
a verdade é: ainda.

cada vez menos: é verdade.
mas é verdade.
ainda.
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"Se gritasse, quem das legiões de anjos escutaria
o grito? E mesmo se, inesperadamente,
um deles me acolhesse no coração: sucumbiria à sua
existência mais forte! Pois o belo não é senão
o princípio do espanto que mal conseguimos suportar,
e ainda assim, o admiramos porque, sereno,
deixa de nos destruir. Todo anjo é espantoso.
E por isso me contenho e refreio o apelo
de um soluço obscuro. Então quem
nos poderia valer? Anjos, não, homens, não,
e os animais inventivos logo se apercebem
de que não nos sentimos muito em casa
no mundo das explicações. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta, para vermos e revermos
todos os dias. Resta-nos a estrada de ontem
e o apelo mimado de um hábito
que por nós se afeiçoou, permaneceu e não foi embora.
E a noite, a noite quando o vento cheio de espaços do mundo
nos desgasta a face - para quem ela não saberia ser desejo e suave decepção,
ela, cuja proximidade pesa sobre
o coração solitário! Será mais leve para os amantes?
Juntos, eles apenas encobrem um para o outro seu destino.
Ainda não sabias? Lança o vazio aprisionado nos braços
para os espaços que respiramos! Talvez os pássaros sintam,
num vôo de maior intimidade, o ar mais amplo.

É, na verdade, as primaveras se valem de ti. Muitas estrelas
te dão coragem para percebê-las. Do passado,
levantou-se uma onda, vindo em tua direção, ou,
ao passares por uma janela aberta,
um violino se entregou a ti. Tudo isso era vocação.
Será que respondeste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo anunciasse
uma amada? (Onde queres abrigá-la,
quando pensamentos grandes e estranhos entram e saem
de ti e na maioria das vezes ficam contigo à noite.)
Na saudade, canta os amantes; está muito
longe de ser imortal sua celebrada ternura.
As abandonadas, tu quase as inveja, elas,
que sentiste mais amorosas do que satisfeitas. Recomeça
sempre de novo a cantar o louvor que nunca se esgota.
Pensa: o herói se contém, até o ocaso
é motivo para o último nascimento.
Mas os amantes, a natureza esgotada
os recolhe, como se já não houvesse duas vezes as forças
para tal desempenho. Já pensaste suficiente em Gaspara Stampa
a ponto de toda jovem abandonada
sentir no poderoso exemplo desta amante
o desejo de ser como ela?
Estas dores, as mais antigas de todas, não deveriam enfim
tornar-se mais fecundas? Não já é tempo de, amando,
nos libertar e, tremendo, resistir ao amado:
como a flecha resiste à corda a fim de, toda concentrada no impulso,
ser mais do que ela mesma? Pois em parte alguma há permanência.

Vozes, vozes! Escuta meu coração, como outrora somente
santos escutavam: a ponto de o apelo vigoroso
os levantar do chão; e, impossíveis,
continuarem ajoelhados e nem se aperceberem:
tanta era a escuta. Não que possas suportar a voz de Deus,
de forma alguma. Mas escuta o que suspira
a mensagem ininterrupta que se forma do silêncio.
UM sussurrosobe agora para ti daqueles jovens mortos.
Em todos os lugares em que entraste, nas igrejas de Roma e
de Nápoles, não te chegava o apelo sereno de teu destino?
Ou uma inscrição não te impunha sua altivez,
como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa!
O que querem de mim? Em silêncio devo depor a máscara
de injustiça que muitas vezes impede
um pouco o movimento puro de seus espíritos.

É estranho, sem dúvida, já não habitar a terra,
já não seguir os costumes que mal foram aprendidos,
já não dar às rosas e às outras coisas, grávidas de
promessas, a significação do futuro humano;
já não ser o que era na angústia infinita
de mãos e abandonar até o próprio nome,
como um brinquedo quebrado.
É estranho já não desejar os desejos. Estranho
ver pairar, solto no espaço,
tudo que se relacionava. Estar morto é trabalhoso
e cheio de repetições para, aos poucos, sentir
uma parcela da eternidade. - Mas todos os vivos cometem
o erro de fazerem distinções muito fortes.
Anjos (assim se diz) muitas vezes nem saberiam se estão
passando entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
arrasta consigo pelos dois reinos
todas as idades e em ambos lhe sobrepuja o som.
Por fim, já não têm necessidade de nós, os jovens
que a morte ceifou. Com docura se perdem os hábitos das coisas terrestres
assim como é com ternura que o crescimento
afasta o seio materno. Mas nós, que necessitamos
de tão grandes mistérios, nós de quem surge, tantas vezes, por luto,
um progresso milagroso - : poderíamos existir sem eles?
Será vã a lenda de Lino, durante as lamentações por sua morte,
a primeira música ousou penetrar a rigidez da matéria
e então, no espaço cheio de espanto onde o jovem quase divino
repentinamente desapareceu para sempre, o vazio começou a vibrar
naquele ritmo que agora nos arrebata, nos consola e nos ajuda."


(Rainer Maria Rilke. a Primeira Elegia de Duíno. rilke não é poeta, é profeta. isso sou eu, agora. talvez só por enquanto. só talvez.)